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Futebol resgata identidade nacional brasileira

Análise sobre como a Copa do Mundo se torna instrumento de uma operação política no Brasil.

Futebol resgata identidade nacional brasileira

Análise · Marcos Tibúrcio

Há uma operação política em andamento no Brasil, e ela usa a Copa do Mundo como instrumento. Lula tenta, sob o impulso do torneio nos Estados Unidos, no México e no Canadá, devolver ao verde e amarelo uma neutralidade que o bolsonarismo passou anos colonizando. Não é manobra pequena. É, na verdade, o reconhecimento de que as cores nacionais viraram campo de batalha — e que a bola, historicamente, é quem tem o poder de redistribuí-las.

Que o PT precise da Copa para fazer isso diz muito sobre o período que o país atravessou. A camisa da seleção deixou de ser roupa de arquibancada para se tornar farda de manifestação. O verde e amarelo aparecia em carreatas, em cercas humanas diante de quartéis, em rostos que pediam golpe. Quem não era daquele lado passou a encolher diante das cores. A nação perdeu acesso ao próprio símbolo.

Agora, a seleção joga. E o futebol tem uma memória mais longa do que a política — e uma presença mais imediata. O Brasil em campo desperta algo que nenhum decreto, nenhum palanque e nenhuma campanha consegue fabricar do nada: a adesão emocional coletiva, que atravessa partido, classe e geração. Lula sabe disso. O PT sabe disso. Por isso a campanha existe.

Mas há uma ironia que o material aponta sem esconder: a seleção chega a esta Copa sem identidade definida. Carlo Ancelotti pode mudar a escalação jogo a jogo. A equipe ainda não sabe exatamente quem é. E é justamente essa seleção — hesitante, em construção, sem uma cara consolidada — que Lula escolhe como veículo para reconquistar uma cor.

Um país tentando se rever no espelho de um time que ainda não se encontrou. Há algo quase literário nessa coincidência, se é que é coincidência.

A operação não é apenas petista, e reduzi-la a isso seria desonesto. LGBTs que se reapropriaram do verde e amarelo em marchas, estilistas que o ressignificaram na moda — tudo isso compõe um movimento mais amplo, do qual o PT participa, mas não comanda sozinho. O símbolo está sendo disputado por muitas mãos ao mesmo tempo. O futebol é o momento em que todas essas mãos se encontram no mesmo grito.

O que a Copa pode fazer que a política sozinha não faz é criar uma experiência compartilhada. Noventa minutos em que um jogador resolve um jogo, e o Brasil inteiro para. Nesse instante, a camisa que alguém veste deixa de ser declaração política para voltar a ser o que sempre foi: pertencimento. É fugaz. Pode não durar além da eliminação. Mas, por ora, é real.

Se Lula vai conseguir o que tenta depende menos da campanha do PT do que do que a seleção vai fazer dentro de campo. O verde e amarelo não se recupera no palanque. Se recupera no Maracanã — ou no MetLife Stadium, nesta Copa. Depende de uma jogada, de um gol, de uma tarde que o país inteiro assiste junto e esquece, por um momento, que estava brigando pelas cores antes de começar o jogo.

Marcos Tibúrcio, chefia de Esporte da Xaplin

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Lula usa campanha do PT para resgatar verde e amarelo

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL