Raphinha deixa vazio que vai além da posição
Análise sobre o impacto da ausência de Raphinha na Seleção Brasileira, que ultrapassa a questão tática.
Análise · Marcos Tibúrcio
Raphinha não é apenas o jogador que ocupa a ponta direita da Seleção Brasileira. Ele é o desequilíbrio, o acelerador, a faísca que precede o caos — e, para esta Copa do Mundo, era também o argumento mais visível de que Carlo Ancelotti tinha encontrado um time, não apenas uma lista de convocados. A lesão que o tira ao menos dos dois próximos jogos não abre só uma vaga no onze. Abre uma pergunta que o Brasil ainda não sabe responder direito.
A questão não é técnica, embora comece por aí. É dramática. Raphinha carregava no corpo uma função que nenhum outro nome do elenco desempenha do mesmo jeito: a capacidade de tornar o jogo irregular, de tirar o adversário do plano, de transformar uma partida previsível em algo que a arquibancada não esperava. Atacantes assim não se substituem por similares — porque similares, por definição, não existem.
Ancelotti agora enfrenta o tipo de decisão que revela mais sobre um técnico do que qualquer vitória fácil. Pode recorrer a Endrick, nome que desperta a pergunta permanente desta geração — quando? — e que vive o paradoxo do talento em compasso de espera. Pode recuar um meia de criação para a faixa e tentar compensar com volume de passes o que perdeu em verticalidade. Pode também compactar o lado direito e redistribuir a sobrecarga para outros caminhos. Cada escolha diz algo diferente sobre o que ele entende ser este time.
O problema de substituir um jogador de desequilíbrio é que desequilíbrio não é função — é temperamento. Você coloca outro nome na mesma posição e descobre, tarde demais, que o buraco era mais fundo.
Há um contexto que torna tudo mais pesado: esta é a Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá, torneio que começou em 11 de junho e que o Brasil entrou com expectativa calibrada entre a obrigação histórica e o cuidado de quem aprendeu a ter medo de Copas. Perder Raphinha agora, quando o torneio ainda está em seus jogos de fase de grupos — onde o erro tem prazo para ser corrigido, mas o hábito de jogar sem ele se instala rápido — é um teste de adaptação que Ancelotti não havia planejado fazer tão cedo.
A disputa que se abre na ponta direita da Seleção será lida como oportunidade para quem entrar. E é. Mas o futebol tem um cinismo particular: a oportunidade que nasce da lesão do companheiro carrega o peso de nunca poder ser celebrada sem um asterisco. Quem entrar jogará bem ou jogará mal — e em qualquer dos casos, o nome de Raphinha vai circular no ar como fantasma de comparação.
Ancelotti terá de decidir. E a decisão que tomar nos próximos dias vai dizer, antes de qualquer resultado, se este Brasil tem um plano B ou se tinha apenas um plano.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge