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O último piano da Rua do Ouvidor

Crônica · Heitor Graça Lembro de meu pai contando, não sem um certo orgulho, que pediu minha mãe em casamento na Colombo. A da Rua Gonçalves Dias.

O último piano da Rua do Ouvidor
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Lembro de meu pai contando, não sem um certo orgulho, que pediu minha mãe em casamento na Colombo. A da Rua Gonçalves Dias. Ele descrevia o Centro do Rio como se falasse de uma cidade estrangeira, uma Paris sonhada entre o Largo da Carioca e a Praça Mauá. Havia, na sua voz, a certeza de quem andava por um lugar que lhe pertencia, onde as calçadas guardavam o passo apressado dos conhecidos e o som do dia se estendia até a noite, sem medo. As pessoas, ele dizia, moravam ali. O trabalho terminava e a vida começava, na mesma esquina.

Na semana passada, precisei ir ao Centro resolver uma burocracia qualquer. Saí do metrô na Cinelândia e senti o ar diferente. Não era a poluição. Era um silêncio onde antes havia conversa, uma pressa sem destino onde havia passeio. As portas de ferro arriadas às seis da tarde são uma espécie de toque de recolher voluntário. O lugar parece ter pressa de se esvaziar, como uma sala de festas depois que o último convidado vai embora.

Meu pai não falava de shopping centers. Falava dos cinemas, dos teatros, dos cafés que viravam bares. A cidade se expandiu, me dizem os jornais. Ganhou bairros distantes, viadutos, artérias expressas que levam as pessoas para longe, para dentro de suas casas. A cidade cresceu tanto para os lados que esqueceu de cuidar do próprio coração.

Fiquei parado em frente a um prédio antigo, imaginando as luzes acesas nas janelas dos andares de cima. Imaginando famílias, jantares, o som de um piano vazando para a rua. Hoje, só há escritórios que cumprem seu horário e se apagam. A vida noturna se resume à luz azulada dos celulares de quem espera o ônibus para voltar para muito, muito longe.

O Centro não morreu. Apenas dorme mais cedo. E sonha, talvez, com o barulho dos bondes e o tempo em que um homem podia pedir uma mulher em casamento no meio da tarde, sem sentir que o mundo ao redor já tinha ido para casa.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Centros de cidades brasileiras esvaziaram desde 1950

Fontes: g1 · UOL