O tufão Bavi e o que a China ensaia quando o mar bate
Análise · Clara Verdi Há uma lógica cruel na geometria dos tufões: eles não escolhem onde pousar, mas revelam muito sobre quem os recebe.
Análise · Clara Verdi
Há uma lógica cruel na geometria dos tufões: eles não escolhem onde pousar, mas revelam muito sobre quem os recebe. O Bavi — a tempestade mais intensa a tocar o território continental chinês neste ano — atingiu a cidade costeira de Yuhuan na madrugada de sábado para domingo e logo depois pousou de novo em Yueqing, parte de Wenzhou, como se quisesse confirmar o que já havia dito. Wenzhou é uma das cidades que a China moderna costuma usar para contar a si mesma: manufatura, empreendedorismo, costa aberta ao mundo. É também uma cidade que sabe o que é tempestade.
O que impressiona no relato que chega de lá não é o apocalipse — é a rotina do apocalipse. Li Liangxing, morador de Yueqing, conta à Reuters que os ventos eram muito fortes, que ouvia telhas e galhos caindo, que ficou assustado — e então acrescenta, quase como desculpa: "mas moramos perto do mar, então estamos acostumados." Essa frase merece atenção. Ela não é resignação; é a descrição de uma competência forjada por repetição. Populações costeiras no leste da China convivem com tufões há séculos, e o Estado chinês contemporâneo construiu sobre essa memória coletiva uma engrenagem de resposta que, desta vez, retirou quase 2 milhões de pessoas de áreas de risco antes da chegada do sistema.
Dois milhões de pessoas. O número é tão grande que tende a deslizar pela atenção sem que o leitor perceba o que ele implica em termos logísticos, políticos e, sobretudo, ideológicos. A evacuação preventiva em escala massiva é uma demonstração de capacidade estatal que democracias liberais frequentemente admiram e raramente conseguem replicar — não porque lhes falte tecnologia, mas porque lhes falta a combinação de centralização, controle territorial e disposição popular ao acatamento que a China mobiliza nesses momentos. O custo dessa combinação é conhecido; o seu rendimento, em situações como esta, também.
O Bavi havia enfraquecido para tempestade tropical quando avançou para o interior na manhã de domingo, mas os meteorologistas alertaram que o sistema — com extensão comparável ao território da França — pode prolongar chuvas intensas pelo leste e pelo norte do país nos próximos dias. Mais de 1.300 árvores caíram apenas em Yueqing, mais de 700 arrancadas pela raiz. Canais transbordaram. Ruas sumiram debaixo d'água. Escavadeiras e motosserras foram mobilizadas para reabrir caminhos.
Cientistas já alertavam que 2026 seria um ano de tempestades catastróficas para a China. O Bavi é o primeiro teste dessa previsão a chegar com força suficiente para importar. O que ele testa não é apenas a infraestrutura costeira — é a hipótese, cada vez mais premente, de que o século que começou como century of globalization está se tornando, nos seus miúdos climáticos, o século das evacuações. A pergunta que o Bavi deixa no ar — e que nenhum telejornal vai formular com essa franqueza — é simples e incômoda: quais Estados estão de fato preparados para mover populações inteiras quando o mar decidir avançar? A resposta, por ora, passa por Zhejiang.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Tufão Bavi atinge leste da China e provoca alagamentos e ventos
Fontes: CNN Brasil · UOL