Terremoto expõe fragilidades estruturais da sociedade
Quando a terra treme em uma sociedade já desmoronando, o desastre natural evidencia vulnerabilidades preexistentes. Análise de Clara Verdi.
Análise · Clara Verdi
Quando a terra treme numa sociedade que já estava desmoronando por dentro, o desastre natural funciona menos como causa e mais como diagnóstico. O que a OMS descreveu nesta terça-feira — hospitais superlotados, pacientes atendidos em estacionamentos, sistema de saúde caótico e sob pressão extrema — não é o retrato de um país que foi atingido por um terremoto. É o retrato de um país que já vivia o terremoto antes de qualquer sismo.
A Venezuela chegou ao colapso sanitário da última década carregando décadas anteriores de petrodependência e de uma arquitetura de Estado que nunca precisou ser eficiente porque o barril pagava a conta. Quando o preço caiu, quando as sanções vieram, quando a fuga de médicos e enfermeiros transformou hospitais em estruturas vazias de pessoal e cheias de necessidade, o sistema não reformou — desabou em câmera lenta. O terremoto apenas acelerou o cronômetro.
O alerta sobre febre amarela e dengue, emitido pela própria OMS diante da baixa cobertura vacinal na região afetada, é o detalhe que mais pesa. Não porque seja surpreendente, mas porque revela a estratigrafia do problema: abaixo da emergência aguda há uma emergência crônica que vinha sendo administrada como se fosse aceitável. Baixa cobertura vacinal não é acidente. É política. Ou ausência dela.
Tratar pacientes no estacionamento de um hospital não é improviso de crise — é a confissão arquitetônica de um Estado que perdeu a capacidade de cuidar dos seus.
Há uma lógica perversa nos desastres naturais que atinge países nessa condição: eles atraem a atenção internacional precisamente no momento em que o sistema já não tem condições de absorver nem a atenção, quanto mais a ajuda. A logística humanitária pressupõe uma estrutura mínima de recepção. Quando essa estrutura inexiste, a solidariedade chega e encontra caos — e às vezes amplifica o caos antes de mitigá-lo.
Para o governo de Nicolás Maduro, o terremoto oferece, paradoxalmente, uma janela retórica. Desastres naturais permitem que governos reconfigurem narrativas de responsabilidade — o que era falha estrutural vira fatalidade geológica, o que era abandono institucional vira tragédia coletiva que "ninguém poderia prever". A OMS, ao documentar publicamente o estado caótico do sistema, fecha parte dessa janela. Não toda, mas parte.
O que resta, depois dos comunicados e das imagens de estacionamentos transformados em enfermarias improvisadas, é uma pergunta que os organismos internacionais raramente formulam com a brutalidade que o momento exige: quanto tempo uma população pode ser mantida em estado de emergência permanente antes que a emergência deixe de ser notícia e vire apenas condição? A Venezuela está testando esse limite há anos. O terremoto apenas trouxe o teste para a superfície.
*Clara Verdi, correspondente Europa — Xaplin*Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Sistema de saúde da Venezuela entra em colapso após terremotos
Fontes: g1 · CNN Brasil
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