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Leqembi chega ao Brasil — para quem pode pagar

Medicamento de R$ 12.700 mensais oferece esperança contra Alzheimer, mas acesso limitado levanta questões sobre equidade no Brasil.

Leqembi chega ao Brasil — para quem pode pagar

Análise · Dra. Camila Torres

R$ 12.700 por mês. Esse é o preço da primeira geração de medicamentos que, pela primeira vez na história da medicina, age sobre a biologia do Alzheimer — e não apenas sobre seus sintomas. O lecanemabe, nome do princípio ativo comercializado como Leqembi pela Dasa, representa uma virada conceitual genuína. Representa também uma ruptura social que o entusiasmo clínico não pode disfarçar.

Por décadas, o que a medicina oferecia a pacientes com Alzheimer era essencialmente paliativo: inibidores de colinesterase, memantina, ajustes comportamentais. Tratava-se o sofrimento, não a causa. O lecanemabe opera em outra lógica — é um anticorpo monoclonal que se liga às placas de beta-amiloide e as remove do tecido cerebral. O estudo CLARITY AD, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, com cerca de 1.800 participantes, demonstrou redução de 27% no declínio cognitivo em pacientes com doença em estágio inicial, em comparação ao placebo. É um número modesto na escala absoluta. É, ao mesmo tempo, historicamente significativo.

A palavra "inicial" carrega aqui todo o peso clínico e ético do argumento. O lecanemabe não recupera o que foi perdido — ele desacelera o que está sendo perdido. Isso significa que sua eficácia depende de diagnóstico precoce, o que, no Brasil, é privilégio de quem tem acesso a neuroimagem avançada, biomarcadores liquóricos ou PET-scan amiloide — exames que não existem na rotina do SUS. O medicamento pressupõe uma infraestrutura diagnóstica que a maior parte da população brasileira simplesmente não possui.

Um tratamento que exige diagnóstico precoce em um país sem rastreamento sistemático é, na prática, um tratamento para poucos — independentemente de qualquer intenção.

O lançamento pela Dasa é, ao mesmo tempo, um avanço e um espelho. Avança porque traz ao país uma terapia de fronteira com real base de evidência, administrada em ambiente hospitalar especializado — o que impõe algum controle de qualidade. Espelha porque o modelo de entrada — via rede privada, a custo mensal que supera o salário anual de boa parte dos brasileiros — cristaliza uma dinâmica conhecida: inovação terapêutica como produto de luxo. Há ressalvas que o próprio CLARITY AD registrou: eventos adversos de imagem relacionados à amiloide, conhecidos como ARIA, ocorreram em parcela significativa dos participantes, exigindo monitoramento por ressonância magnética seriada — mais um custo invisível embutido no tratamento.

A pergunta que o lançamento coloca não é técnica. É política. Nos Estados Unidos, o Medicare levou anos para decidir se cobriria o lecanemabe. No Reino Unido, o NICE ainda não o incorporou ao NHS, avaliando que o custo-benefício não justifica cobertura universal. O Brasil, com uma Anvisa que aprovou o medicamento e um sistema público que não tem condições imediatas de absorvê-lo, está num ponto de inflexão. Ou o Ministério da Saúde e a Conitec começam agora a avaliar critérios de incorporação — com honestidade sobre limitações fiscais e seleção de pacientes — ou consolida-se mais um capítulo em que a medicina do futuro pertence ao presente de alguns.

O Alzheimer atinge mais de um milhão e meio de pessoas no Brasil, a maioria sem diagnóstico formal. Para essas pessoas, o Leqembi ainda não chegou.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Dasa lança Leqembi para Alzheimer em estágio inicial

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.