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O sobrenome na porta do ministério

Análise · Luciano Aragão Uma reunião no Ministério da Saúde não rendeu negócio.

O sobrenome na porta do ministério
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

Uma reunião no Ministério da Saúde não rendeu negócio. A minuta de um contrato para venda de canabidiol foi enviada ao ex-chefe de gabinete do presidente, que diz não a ter repassado. A Polícia Federal, no entanto, decidiu olhar não para o resultado, mas para o método. E no método, encontrou um nome: Fábio Luís Lula da Silva.

O relatório policial, parte de uma investigação que corre no Supremo Tribunal Federal, define o filho do presidente como “beneficiário indireto” das articulações da empresária e lobista Roberta Luchsinger. O documento o descreve como uma “referência decisória” nos projetos dela. É um eco de um problema antigo no poder: a proximidade familiar como ativo político, real ou percebido.

A estrutura descrita pela PF envolve uma teia de relações que parte de uma amiga do filho do presidente, Roberta Luchsinger, passa por um ex-chefe de gabinete presidencial, Marco Aurélio Santana Ribeiro, e chega à porta de um secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa. O fato de o negócio não ter prosperado é, para a defesa, prova de inocência. Para os investigadores, parece ser apenas um detalhe de percurso.

O que se desenha não é um esquema de corrupção clássico, com dinheiro trocando de mãos, mas a economia mais sutil da influência. O sobrenome abre a porta. A menção ao nome serve de aval. A defesa de Fábio Luís, exercida pelo advogado Marco Aurélio de Carvalho, classifica a investigação como “esculhambação”, fruto de vazamentos seletivos. É a narrativa do alvo político, comum em Brasília quando o sobrenome pesa. Resta saber se o argumento convence para além do círculo de aliados.

A menção em mensagens de que a lobista precisaria tirar Fábio Luís do Brasil até 2025, ano em que ele se mudou para a Espanha, adiciona uma camada de urgência ao enredo. Para quem investiga, pode ser um indício de que algo precisava ser protegido. Para quem se defende, é mais um fragmento descontextualizado em uma apuração que veem como viciada.

O Palácio do Planalto ainda não tratou o assunto como uma crise. O presidente, por meio de assessores, diz não conhecer a lobista. A estratégia é isolar o filho do governo. Mas em um ano eleitoral, qual a distância segura entre o sobrenome do presidente e uma investigação da Polícia Federal?

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: PF vê Lulinha como beneficiário indireto de lobista em venda

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.