O silêncio de Israel e a palavra de Trump
Análise · Clara Verdi O comunicado veio pela Truth Social, a rede que é o megafone digital de Donald Trump, e com a sintaxe que lhe é própria:…
Análise · Clara Verdi
O comunicado veio pela Truth Social, a rede que é o megafone digital de Donald Trump, e com a sintaxe que lhe é própria: a do triunfo, do marco histórico, da paz selada pela sua vontade. O acordo para o desarmamento do Hamas existe, segundo o presidente americano, e é um “passo fundamental” do seu Plano de 20 Pontos. A facção palestina, por meio de fontes anônimas, confirma o acerto. O Egito, o Qatar e a Turquia, mediadores do pacto, recebem os agradecimentos de Washington. No meio da geometria de declarações, falta um vértice: Israel. Até o fim da noite, o governo israelense permanecia em silêncio, e o ceticismo era a única mensagem que seus funcionários emitiam pelas agências de notícias.
A paz anunciada por um tuíte presidencial tem a fragilidade de um castelo de cartas erguido sobre um território que não conhece a paz, apenas pausas. O que se acorda nos gabinetes climatizados precisa sobreviver à realidade de Gaza, onde mais da metade do território continua ocupado pelo exército israelense e onde centenas de palestinos morreram mesmo depois do cessar-fogo assinado em outubro do ano passado. A guerra, dizem, está em um estado congelado, mas o gelo queima. O Hamas, que sempre condicionou seu desarmamento à retirada completa das tropas de Israel, agora aceita um processo em fases, um balé delicado onde um passo em falso de um lado pode paralisar o outro por tempo indeterminado.
O diabo, como sempre, está nos detalhes que o anúncio de Trump prefere ignorar. As armas não serão entregues, mas contabilizadas e apreendidas por um futuro “comitê tecnocrático”. A palavra soa asséptica, mas esconde a questão fundamental da soberania e do poder real. Quem garante a autoridade desse comitê? A prometida “Força Internacional de Estabilização” trabalhará com quem, exatamente, quando a nova força policial palestina ainda é uma ideia no papel?
Trata-se de um marco importante na implementação do Plano de 20 Pontos de Trump. O acordo será executado em fases cuidadosamente estruturadas.
Mais do que o início de uma nova era, o acordo soa como a crônica de um desfecho anunciado para consumo externo, uma fotografia para a campanha eleitoral que se avizinha. A paz que precisa ser proclamada com tanta veemência antes mesmo de ser aceita por um dos seus principais atores nasce sob o signo da dúvida. Enquanto os tanques israelenses não se moverem para fora de Gaza, e enquanto a única resposta de Israel for o silêncio, a paz de Trump arrisca ser apenas isso: uma palavra escrita em uma rede social, tão volátil quanto a areia do deserto onde se pretende construí-la.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Hamas e EUA anunciam acordo para desarmamento em Gaza
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL