Greve de ônibus paralisa Rio de Janeiro
Crônica de Heitor Graça sobre o cotidiano na cidade durante a paralisação dos transportes públicos.
Crônica · Heitor Graça
Tinha uma mulher na esquina da Siqueira Campos com uma sacola grande demais para a distância que ela claramente não esperava caminhar. Ficou um tempo ali, olhando para o lado de cá, para o lado de lá, como quem aguarda uma promessa que já sabe que não vai chegar. Depois colocou a sacola no chão, coçou o pescoço e começou a andar.
Segundo dia de greve dos motoristas de ônibus no Rio, e a cidade foi aprendendo de novo o que ela às vezes esquece: que tem pernas.
As filas foram longas de manhã. Os ônibus que saíram circularam lotados, com aquele aperto que não é bem sofrimento nem bem solidariedade, mas alguma coisa entre os dois — o suor do desconhecido no seu ombro tem uma intimidade que nenhuma rede social conseguiu ainda reproduzir. A paralisação foi mantida pelos motoristas ao menos até a audiência de conciliação marcada para resolver o impasse trabalhista. Enquanto isso, a cidade foi se virando.
Tem algo curioso no Rio quando o transporte falha. A cidade não para com elegância — ela para com improviso, com jogo de cintura, com uma resignação que de tão praticada já virou quase esportiva. O mototaxista que triplicou o preço sem mudar a expressão. O homem de terno que dividiu Uber com dois estranhos e chegou na reunião contando que foi ótimo. A menina que caminhou quarenta minutos ouvindo funk no fone, suada e na hora certa.
Eu desci mais cedo do que precisava. Sentei num banco da praça e fiquei olhando quem passava. A cidade caminhada tem outro ritmo — você vê as calçadas quebradas que do ônibus parecem só um borrão, vê a goiabeira no meio do quarteirão que alguém plantou e ninguém sabe quando, vê o cartaz de campanha de 2022 que ainda resiste numa parede como um homem teimoso que não recebeu o recado.
A mulher da sacola passou de novo na direção contrária, sem a sacola. Deve ter deixado em algum lugar. Agora andava mais leve, mais rápida, com a expressão de quem resolveu um problema que ela não criou mas que de algum jeito era dela agora.
A audiência vai acontecer. Os ônibus vão voltar. A cidade vai sentar de novo no banco de trás e olhar o vidro embaçado. Mas por um ou dois dias, ela teve que ir a pé até as próprias coisas. E algumas coisas, descobriu, estavam mais perto do que parecia.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Motoristas de ônibus mantêm greve no Rio até audiência trabalhista
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL