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O Rio não está à beira do abismo. Já desceu

Análise · Luciano Aragão A palavra "narcoestado" carrega uma imprecisão útil: sugere que o problema é externo ao Estado, que o crime avança…

O Rio não está à beira do abismo. Já desceu

Análise · Luciano Aragão

A palavra "narcoestado" carrega uma imprecisão útil: sugere que o problema é externo ao Estado, que o crime avança sobre uma instituição que resiste. No Rio de Janeiro, a evidência acumulada aponta para outra geometria. Não é o tráfico que corrói o Estado — é o Estado que, em partes consideráveis, opera como infraestrutura do tráfico.

O que a reportagem da Folha de S.Paulo documenta não é novidade como fenômeno. É novidade como grau. Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro e Amigos dos Amigos há décadas dividem o território fluminense com a precisão de cartórios. O que muda agora é a profundidade da integração: policiais corruptos não são mais a exceção que a corporação tolera — são peça funcional do sistema. Bicheiros que financiam escolas de samba não são apenas contraventores com gosto pelo carnaval — são nós de uma rede de lavagem que une favela, avenida e sistema financeiro.

Narcoestado, no sentido técnico, é aquele em que o poder do tráfico substitui ou captura as funções soberanas do Estado — legislar, cobrar impostos, regular o uso da força, administrar conflitos. O Rio não chegou lá por decreto. Chegou por sedimentação. Cada CPI arquivada, cada delegado transferido em vez de preso, cada governador que negociou segurança pública como moeda eleitoral depositou uma camada. O resultado atual é menos um colapso do que uma estabilidade perversa: o sistema funciona, só não funciona para quem não tem proteção.

O problema do diagnóstico "narcoestado" é que ele ainda soa como alerta. Para quem mora em Vigário Geral ou no Alemão, é descrição do cotidiano há trinta anos.

A implicação federal é inevitável e raramente dita com clareza. O Rio de Janeiro não é uma anomalia que o restante do país observa com distância segura. É laboratório. As rotas de armas que abastecem o CV passam por estados que elegem bancadas ruralistas e conservadoras. O dinheiro lavado circula em setores imobiliários que operam em São Paulo, Brasília e Florianópolis. A corrupção policial que protege o tráfico fluminense é prima-irmã da que protege o garimpo ilegal no Pará e o contrabando no Paraguai. A diferença é que no Rio a densidade geográfica do problema tornou a invisibilidade impossível.

O que falta não é diagnóstico — há relatórios desde os anos 1990 dizendo exatamente o que a reportagem diz hoje. O que falta é consequência institucional que não seja seletiva. Prender soldado do tráfico é operação. Desmontar a rede que conecta o soldado ao policial, ao bicheiro, ao contador e ao político é outra ordem de problema — uma que exige que o Estado investigue a si mesmo com seriedade que, até agora, demonstrou não ter.

O Rio não está no rumo de ser um narcoestado. Está no rumo de ser reconhecido como um.

Luciano Aragão

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Rio enfrenta avanço do tráfico e corrupção institucional

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL