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O trilhão que contradiz o discurso climático do Planalto

Análise · Ricardo Mendes R$ 2,8 trilhões é um número que precisa de moldura antes de fazer sentido.

O trilhão que contradiz o discurso climático do Planalto

Análise · Ricardo Mendes

R$ 2,8 trilhões é um número que precisa de moldura antes de fazer sentido. Para comparação, é mais do que o dobro do PIB do Chile e equivale a cerca de 25% do PIB brasileiro projetado para 2024. Não se trata de uma rubrica orçamentária ordinária — é a aposta estrutural do Estado brasileiro sobre onde estará sua base energética nas próximas décadas. E a direção dessa aposta, aprovada pelo governo Lula nesta quinta-feira, aponta inequivocamente para o subsolo.

O plano energético destina a petróleo e gás um montante sete vezes superior ao alocado para energia renovável. A assimetria não é apenas contábil — ela revela uma hierarquia de prioridades que dificilmente se reconcilia com o tom dos discursos brasileiros em fóruns climáticos internacionais. O Brasil que negocia em Baku e Belém como guardião da Amazônia é o mesmo que, no plano doméstico, ancora sua estratégia energética de longo prazo em hidrocarbonetos.

Há uma defesa técnica legítima para essa escolha, e ela merece ser enunciada com precisão: o petróleo do pré-sal brasileiro, por suas características geológicas, produz um barril com intensidade de carbono comparativamente baixa frente a outras províncias petrolíferas globais. O argumento — desenvolvido pelo próprio setor e incorporado pela Petrobras em sua narrativa ESG — é que enquanto o mundo ainda consumir petróleo, faz sentido que o produza quem o faz com menor emissão por barril. É um argumento com algum amparo técnico. Também é um argumento conveniente.

O problema não é produzir petróleo. O problema é construir uma matriz futura cuja espinha dorsal ainda seja o petróleo — especialmente quando o custo de capital das renováveis segue em trajetória de queda e a janela de investimentos em transição energética tem prazo.

O gás natural merece atenção separada. O plano sinaliza crescimento de sua participação na matriz, o que, em termos de emissões, representa um passo atrás em relação à hidroeletricidade — ainda que adiante do carvão. A lógica subjacente é de segurança energética e complementaridade às intermitências das renováveis. Não é desprovida de racionalidade. Mas o peso relativo do investimento revela que não se trata de complementaridade: trata-se de protagonismo.

Do ponto de vista macroeconômico, R$ 2,8 trilhões em investimento projetado — assumindo que seja realizado ao longo de um horizonte decenal, como os planos energéticos costumam contemplar — representa um vetor de demanda agregada de magnitude considerável. O impacto sobre emprego, encadeamentos industriais e arrecadação é real e não trivial. O problema analítico é que esses fluxos precisam ser confrontados com os custos futuros de adaptação climática, que o Brasil já começa a contabilizar de forma dolorosa — e que não aparecem neste plano.

O que o governo aprovou não é, por si só, uma aberração energética num horizonte de dez anos. O que é difícil de sustentar é a coexistência entre esse plano e a retórica de liderança climática global. Escolhas alocativas desta magnitude são compromissos. E compromissos têm o hábito inconveniente de falar mais alto do que declarações.

Ricardo Mendes é chefe de Economia da Xaplin e economista pela FGV.

Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Governo aprova plano energético com R$ 2,8 tri para petróleo e gás

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL