O Rio dividido e o Brasil ausente
Análise · Luciano Aragão No sábado, 22 de agosto, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, e Flávio Bolsonaro, senador e candidato…
Análise · Luciano Aragão
No sábado, 22 de agosto, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, e Flávio Bolsonaro, senador e candidato, fizeram campanha na mesma cidade. Um em Bangu, Zona Oeste. O outro no Maracanãzinho, Zona Norte. Falaram sobre o Rio de Janeiro. Ambos com o mesmo diagnóstico: o estado precisa ser tirado do domínio do crime.
As semelhanças param no diagnóstico. O presidente, no Estádio Proletário Moça Bonita, prometeu investir em educação ou, como alternativa, em cadeias. Ofereceu institutos federais e escolas de tempo integral. Uma solução que matura em décadas. Na segurança, afirmou que vai “tirar os bandidos dos territórios” e “prender”, mas sem “pirotecnia, matar 100 ou 200”. Flávio Bolsonaro, no Maracanãzinho, prometeu o oposto: o enquadramento de facções como o Comando Vermelho e o PCC, além das milícias, como organizações terroristas. Uma solução de força.
Dois discursos, um espelho
Os dois comícios, a poucos quilômetros de distância, não conversavam com o Brasil. Eram diálogos cifrados com o eleitorado fluminense. Lula acenou para a classe média progressista e para as comunidades que padecem com a violência policial, prometendo uma abordagem estrutural. Flávio Bolsonaro falou para a audiência que aplaude operações de grande letalidade e vê no endurecimento penal a única saída possível. Um prometeu livros. O outro, leis mais duras.
O Rio de Janeiro, com sua crise de segurança crônica, serviu de palco para dois monólogos que se repetem há anos. São discursos que se retroalimentam e se definem pela negação do outro. Nenhum deles parece capaz de furar a bolha do seu próprio auditório. O que se ouviu em Bangu não seria aplaudido no Maracanãzinho, e vice-versa. É um retrato fiel da divisão política nacional, condensado em uma tarde de sábado na capital fluminense.
Enquanto isso, em Minas Gerais, um estado com mais eleitores que o Rio, a campanha seguia em outra rotação. Candidatos ao governo visitavam mercados, gravavam vídeos para redes sociais, davam entrevistas a rádios locais. Discutia-se a vida cotidiana. A política comezinha, sem ecos de grande projeto nacional. É possível que o eleitor mineiro esteja ouvindo mais sobre seu estado do que o eleitor fluminense.
Resta saber o que acontece quando os palanques se desarmam. Um governo não se faz apenas com a negação do adversário, nem com a repetição de fórmulas que agradam aos já convertidos. O Brasil ainda espera uma proposta que vá além de escolher entre a prisão e a escola.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Lula e Bolsonaro fazem comícios simultâneos no Rio
Fontes: Agência Brasil · g1