Memphis Depay visita vestiário após consolidar liderança
O atacante consolidou sua posição de destaque no time após encontro com a comissão técnica no vestiário.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma cena que o futebol guarda com carinho especial: a do poder institucional descendo do camarote para apertar a mão do jogador. É o momento em que o protocolo reconhece o que a arquibancada já sabia. Quando o rei Willem-Alexander entrou no vestiário da Holanda após a goleada e disse a Memphis Depay "é maravilhoso ter você aqui", não estava fazendo um elogio. Estava confirmando um fato tardio.
Memphis tem 30 e tantos anos, uma carreira que passou por Barcelona, Atlético de Madrid, Lyon, pela seleção holandesa em ciclos alternados de glória e contradição — e chegou ao Corinthians num movimento que muita gente leu como despedida disfarçada de aventura. O Brasil costuma fazer isso com jogadores europeus: recebê-los como troféus de prateleira, sem acreditar de verdade que ainda têm fogo. Memphis tratou de mostrar que o fogo era dele, não da prateleira.
A presença dele nesta Copa é, antes de tudo, uma afirmação de caráter. Não é simples para um atacante acostumado às ligas mais competitivas do mundo manter a forma, a relevância e a vontade numa divisão diferente de exigência. O Brasileirão cobra de outro jeito — cobra fisicamente, cobra taticamente, cobra a adaptação ao calor, ao calendário sem fim, à bola que às vezes não obedece ao campo. Memphis passou por isso e chegou à Copa como titular, como referência, como o nome que o próprio rei foi buscar no vestiário.
O poder institucional desce do camarote quando não tem mais como ignorar o que acontece embaixo.
Ronald Koeman, ao ser perguntado sobre o adversário das oitavas — Brasil ou Marrocos —, disse não ter preferência. É a fala correta de um técnico que sabe que preferência declarada é fraqueza exposta. Mas a resposta também diz algo sobre o momento da Holanda: uma seleção que goleou, que tem o rei no vestiário, que tem Memphis em campo, não precisa escolher adversário. Pode esperar qualquer um.
O que a cena do rei e do atacante revela, no fundo, é uma das grandes ironias do futebol contemporâneo. Memphis saiu da Europa, foi para o Corinthians — clube de massa, de drama, de contradição permanente — e voltou à Copa não como memória de uma carreira, mas como seu capítulo mais bem escrito. O palácio foi até o vestiário porque o vestiário mereceu o palácio.
Isso é o que o futebol faz quando funciona: dissolve a distância entre o camarote e o gramado, entre a coroa e a chuteira. Memphis Depay não precisava da visita do rei para saber o que vale. Mas o rei precisava fazer a visita para que todos soubessem que sabia.
*Marcos Tibúrcio — Chefe de Esporte, Xaplin*Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge