Brasil perde recorde de 60 anos para Houston
O Brasil perdia um número que carregava como medalha: sua maior marca histórica em uma competição internacional agora pertence aos Estados Unidos.
Análise · Marcos Tibúrcio
Havia um número que o Brasil carregava como se carrega uma medalha no peito, discreta mas sempre presente: a maior sequência de jogos invictos em Copas do Mundo. Sessenta anos. Uma marca construída em outro século, em outro futebol, por uma seleção que ainda hoje aparece nos sonhos de quem não a viu jogar. Pois na tarde desta sexta-feira, em Houston, a Holanda arrancou essa medalha sem cerimônia. Goleou a Suécia por 5 a 1 e virou página.
O recorde caiu de uma maneira que merece atenção além do placar. Não foi numa batalha de Copa, num jogo de quartas de final contra uma potência, num daqueles dramas que a competição fabrica. Caiu numa partida de fase de grupos, contra uma Suécia que entrou em campo na segunda rodada já com a pressão da classificação. A Holanda não precisou sofrer para escrever história. Precisou, apenas, jogar.
E jogou. Cinco a um não é acidente — é tese. É uma equipe que encontrou ritmo, volume e eficiência no mesmo jogo. Houston recebeu algo que Copas do Mundo às vezes negam por semanas: futebol que convence antes mesmo de terminar.
O recorde brasileiro resistiu a outros torneios, outras gerações, outras seleções que chegaram e foram embora sem tocá-lo. A Holanda de 2026 tocou.
Para o Brasil, a notícia tem uma camada incômoda que vai além do sentimental. Marcas assim dizem menos sobre o presente e mais sobre o passado — mas quando o presente da seleção brasileira nesta Copa é o que é, a perda do recorde ganha um peso que seria injusto chamar de simbólico apenas. O símbolo é sempre o que resta quando a substância foi embora.
A Holanda, por sua vez, chega à liderança do Grupo F com uma consistência que obriga respeito. Não é uma equipe que surpreende — é uma equipe que confirma. E nesta Copa, onde tantas seleções ainda estão procurando o próprio jogo entre o cansaço de viagem e o calor do continente norte-americano, confirmar já é muito.
O recorde de sessenta anos foi construído com suor, com craque, com tardes que viraram lenda. Foi derrubado com eficiência, em grupo, num estádio americano, por uma Holanda que não parecia estar pensando em história quando entrou em campo. Às vezes é assim que a história acontece: sem aviso, sem drama preparado, sem que ninguém no banco adversário perceba o exato momento em que o passado é ultrapassado. A Suécia certamente não estava pensando nisso. Tampouco os holandeses. E o Brasil, que assistia de longe, entendeu depois — como sempre se entende.
Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Holanda goleia Suécia e quebra recorde de invencibilidade do Brasil
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil