Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

Pesquisa revela diferença entre reconhecer doença e saber risco

Há diferença importante entre saber que algo faz mal e reconhecer que é uma doença, analisa a Dra. Camila Torres.

Pesquisa revela diferença entre reconhecer doença e saber risco

Análise · Dra. Camila Torres

Há uma diferença importante entre saber que algo faz mal e reconhecer que esse algo é uma doença. O tabagismo levou décadas para atravessar essa fronteira na consciência pública — e só o fez depois que a indústria do cigarro perdeu o controle da narrativa. Com as apostas esportivas online, o Brasil parece estar no início desse mesmo deslocamento. O Datafolha, em pesquisa realizada nos dias 20 e 21 de maio, identificou uma oscilação positiva na percepção dos brasileiros de que bets e jogos online constituem vício. É um dado modesto em si mesmo. O que ele sinaliza, porém, é mais relevante do que o número.

Percepção pública não é diagnóstico clínico, e vale deixar isso claro. O transtorno do jogo patológico — classificado no DSM-5 e na CID-11 como condição de saúde mental, não como fraqueza de caráter — tem critérios precisos: preocupação persistente com o jogo, necessidade de valores crescentes para obter a mesma excitação, tentativas fracassadas de controle, irritabilidade na abstinência. A opinião da população sobre o tema não define a nosologia. Mas ela importa enormemente para a política pública, porque nenhuma regulação eficaz sobrevive sem legitimidade social.

O momento é específico. O Brasil vive uma expansão acelerada do mercado de apostas esportivas, com plataformas operando em escala nacional e publicidade onipresente. Nesse contexto, uma pesquisa que aponta aumento na percepção do risco não é trivial — é o sinal de que parte da população começou a conectar a oferta ao dano. Esse tipo de mudança costuma preceder, e às vezes forçar, respostas regulatórias. Não é acidente que o movimento pela restrição da publicidade de tabaco ganhou força exatamente quando a percepção pública deixou de tratar o fumante como imprudente e passou a vê-lo como dependente.

A pergunta relevante não é se as apostas online causam dependência — a literatura já responde isso com razoável consistência. A pergunta é: quando a sociedade brasileira vai tratar esse problema como problema de saúde, e não como problema de disciplina pessoal?

Existe ainda a questão do recorte. A pesquisa do Datafolha também indica redução em algum indicador — os materiais disponíveis não detalham o quê, e não cabe especular. Mas oscilações em pesquisas de percepção raramente são lineares: o público avança em alguns pontos e recua em outros, dependendo da exposição recente ao tema, da cobertura midiática, de casos que ganharam visibilidade. O que interessa metodologicamente é a tendência ao longo do tempo, não o instantâneo de maio.

O dado do Datafolha é um termômetro, não um eletrocardiograma. Ele mede temperatura, não função. Mas temperatura importa. Quando uma sociedade começa a nomear corretamente um problema — quando troca "fraqueza" por "vício", "falta de controle" por "transtorno" — ela cria as condições para que a resposta seja proporcional ao dano. O SUS já recebe pacientes com comportamento compulsivo ligado a apostas. O sistema de saúde não espera que a opinião pública amadureça para atender. Mas as políticas de prevenção, a regulação da publicidade, a proteção de grupos vulneráveis — essas dependem, sim, de que a percepção coletiva esteja afinada com a evidência. Esse afinamento parece ter começado.

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasileiros percebem mais apostas online como vício, diz Datafolha

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.