O mapa do berço e o destino do CPF
Análise · Luciano Aragão Nascer mulher e não branca em uma família entre os 25% mais pobres do Brasil significa ter uma probabilidade de 69%…
Análise · Luciano Aragão
Nascer mulher e não branca em uma família entre os 25% mais pobres do Brasil significa ter uma probabilidade de 69% de permanecer nesse mesmo estrato de renda na vida adulta. O número, um dos vários organizados no Atlas da Mobilidade Social, não é uma opinião. É uma sentença estatística. O estudo, elaborado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) em parceria com o Prospera Lab, serve como um espelho de alta definição para uma estrutura que o debate público costuma tratar com abstrações.
A meritocracia, um dos pilares do discurso liberal que anima os corredores de Brasília, parece funcionar com uma eficiência seletiva. Para quem nasce nos 25% mais ricos, o mérito de se manter no topo é auxiliado por uma probabilidade de 56,5%. Já para os filhos dos 25% mais pobres, a jornada para o mesmo topo tem apenas 8,32% de chance de sucesso. Chegar à elite dos 10% mais ricos é uma proeza para apenas 1,28% dos que partem da base.
O Atlas revela que o CEP de nascimento e a cor da pele são variáveis mais determinantes que o esforço individual. O que chama atenção não é a existência da desigualdade, um dado conhecido, mas a sua rigidez. A comparação entre duas gerações, uma nascida entre 1983 e 1987 e outra entre 1988 e 1990, mostra uma resiliência notável do sistema. A mobilidade aumentou de forma residual, quase um erro de arredondamento. A máquina de reprodução de privilégios e desvantagens opera com a mesma precisão há décadas.
A questão racial impõe uma barreira adicional. Enquanto um terço dos jovens brancos nascidos pobres permanece na pobreza, o percentual salta para mais da metade entre os não brancos. O fator de gênero é ainda mais brutal. Duas em cada três mulheres que nascem pobres continuam pobres. Para os homens, a proporção é de um para três. A combinação de ser mulher e não branca cria o que os dados mostram ser o piso mais aderente da pirâmide social brasileira.
Políticas públicas são desenhadas, orçamentos são votados e discursos são proferidos no Congresso e no Planalto. Os números do Imds, contudo, indicam que o efeito prático de tudo isso sobre a estrutura fundamental da sociedade é mínimo. A herança familiar, de sobrenome e de cor, continua a ser o ativo mais valioso ou o passivo mais pesado na contabilidade de uma vida. O Brasil continua sendo um país onde o ponto de partida define, com margem de erro pequena, a linha de chegada.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil