O que desce no chão às vezes sobe no peito
Crônica · Heitor Graça Na Penha, nesta sexta-feira, uma roda de corte gigante desceu para dentro da terra. Não subiu bandeira, não tocou hino.
Crônica · Heitor Graça
Na Penha, nesta sexta-feira, uma roda de corte gigante desceu para dentro da terra. Não subiu bandeira, não tocou hino. Desceu devagar, como quem vai com cuidado, e os homens que a guiavam usavam capacete laranja e a expressão concentrada de quem sabe que o erro, ali, não tem segunda tentativa.
Eu não estava lá. Mas conheço esse rosto.
É o rosto do meu vizinho Arnaldo quando instalou o armário embutido do quarto, nível na mão, três vezes conferindo o prumo antes de fixar o primeiro parafuso. É o rosto da mulher da padaria quando corta o pão na diagonal, porque diagonal é mais bonito e ela sabe que vai ser. É o rosto de todo mundo que faz uma coisa grande fingindo que é pequena, para que saia certa.
A roda vai escavar o túnel que vai levar o metrô até Guarulhos. Não sei quantos anos isso leva, não sei quando o primeiro passageiro vai sentar no banco e olhar pela janela o nada escuro do subterrâneo antes de emergir em algum lugar que ainda não existe direito no mapa da cidade. Mas sei que começa aqui: uma roda que desce.
São Paulo tem esse jeito. A cidade abre buracos com convicção de quem está construindo catedral, e talvez esteja, à sua maneira barulhenta e sem santidade. Quem mora na Penha há anos já viu muita promessa passar por ali em forma de obra, tapume, poeira e rota de ônibus desviada. A fé não é ingênua: é resiliente, que é diferente.
Penso no maquinista que um dia vai conduzir essa composição, alguém que talvez hoje esteja em outro ramal, olhando o relógio na cabine, sem saber que o trabalho mais importante da sua vida está sendo inaugurado embaixo da terra, em silêncio, por uma roda que ninguém vai ver depois que o cimento fechar tudo por cima.
É assim que as cidades guardam seus milagres: enterrados, invisíveis, funcionando.
A roda desceu na Penha nesta sexta. Lá fora, em Guarulhos, alguém ainda não sabe que a cidade está vindo ao seu encontro, palmo a palmo, pela escuridão.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Roda de corte gigante desce em obra do metrô até Guarulhos
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL