O que a inveja de Rizek diz sobre o Brasil de Ancelotti
Análise · Marcos Tibúrcio Há uma palavra que os brasileiros costumam expulsar do vocabulário esportivo por vergonha ou por orgulho mal posicionado.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma palavra que os brasileiros costumam expulsar do vocabulário esportivo por vergonha ou por orgulho mal posicionado. André Rizek a usou sem cerimônia, ao vivo, depois de ver a Inglaterra eliminar a Noruega pelas quartas de final: inveja. Não é pouca coisa. É exatamente o tipo de honestidade que o futebol brasileiro raramente consegue se permitir, e que quando aparece, diz mais sobre a ferida do que qualquer análise tática.
O Brasil perdeu para a Noruega nas oitavas com 33% de posse de bola e 279 passes trocados. A Inglaterra, diante do mesmo adversário, teve 52% de posse e 567 passes. Não é nuance — é outra concepção de jogo. A Noruega que trocou 617 passes contra o Brasil, mais do que havia trocado contra a Moldávia nas eliminatórias, foi a mesma que a Inglaterra deixou com 492. O Haaland, que contra o Brasil assustou, mal tocou na bola. O Odegaard, motor de tudo, foi anulado. Tuchel foi ao encontro do adversário. Ancelotti esperou o adversário chegar.
O problema não é a derrota. Eliminação em Copa do Mundo é parte do rito — dolorosa, mas prevista no regulamento desde sempre. O problema é a regressão. Felipe Melo, que conhece o vestiário por dentro e tem o raro mérito de não amenizar o que vê, disse com todas as letras: o Brasil regrediu em relação a 2022. Tuchel pegou uma seleção em patamar razoável e a fez evoluir. Ancelotti foi anunciado em maio de 2025 e, quatro anos depois de Qatar, entregou um time que abriu menos espaço, trocou menos passes e controlou menos o jogo do que a versão de Tite.
Não se compara tempo de trabalho como se compara CEP. Tuchel assumiu a Inglaterra em janeiro de 2025, quatro meses antes de Ancelotti chegar ao Brasil. A diferença não está no calendário — está no método.
Ancelotti é um técnico de clube, de relacionamento, de gestão de vestiário de Champions League. Chegou ao Brasil como chegaria ao Real Madrid: com a autoridade de quem já ganhou tudo e a discrição de quem não precisa provar nada. O futebol de seleção exige outra coisa — exige identidade coletiva, pressão organizada, ideia que sobreviva à ausência de um jogador. A Inglaterra tem isso. O Brasil de 2026 não demonstrou ter.
A inveja de Rizek é o diagnóstico mais preciso que saiu da Copa até aqui. Não é fraqueza admiti-la — é lucidez. O Brasil olhou para a Inglaterra eliminar a Noruega e reconheceu, naquele jogo, o que deveria ter sido o seu. A arquibancada brasileira dispersou. A inglesa ficou até o apito final, cantando. Às vezes, a diferença entre duas seleções cabe numa estatística de posse. Às vezes, cabe numa palavra de seis letras que um jornalista teve coragem de dizer.
Marcos Tibúrcio, Xaplin Esporte
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge