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O que a Dubai brasileira não consegue espelhar

Crônica · Heitor Graça O porteiro chega às seis da manhã.

O que a Dubai brasileira não consegue espelhar

Crônica · Heitor Graça

O porteiro chega às seis da manhã. Não sei o nome dele, mas sei que ele vem de longe — de um bairro sem arranha-céu, sem espelho, sem vista para o mar. Ele abre a porta giratória para o lobby de mármore, cumprimenta o morador que passa sem olhar, e passa o dia inteiro dentro de um edifício que jamais poderá habitar. Isso acontece em muitos lugares do Brasil. Em Balneário Camboriú, acontece com uma clareza que chega a ser didática.

A prefeita da cidade disse, numa frase que ficou soando como um troço estranho depois que a gente entende bem: trabalhadores que ganham até quinze mil reais não conseguem pagar aluguel ali. Quinze mil. Ela não disse isso como denúncia, creio — disse como diagnóstico, como quem constata que o termômetro marcou temperatura demais e encolhe os ombros diante do mercúrio. Mas a frase ficou. Tem o peso das coisas que se falam sem querer dizer tudo que dizem.

Balneário Camboriú ganhou o apelido de Dubai brasileira por conta dos arranha-céus — alguns passando de duzentos e noventa metros de altura, espelhados, reluzentes, com a orla logo ali na frente. É bonito de ver, dizem os que foram. Deve ser mesmo. Dubai também é bonita de ver, dizem os que foram a Dubai. Em Dubai, os trabalhadores que constroem as torres moram em alojamentos fora da cidade. O paralelo é tão óbvio que parece indelicado mencioná-lo. Mas é o tipo de coisa que a crônica existe para mencionar.

O porteiro do meu exemplo imaginário — porque não inventei nenhum nome, nenhum dado, apenas o detalhe humano que os números deixam entrever — termina o turno às duas da tarde. Pega um ônibus. Vai embora. A torre fica ali, espelhando o céu, espelhando o mar, espelhando tudo menos ele.

Há algo de perturbador numa cidade que consegue construir para o alto e não consegue alojar quem a faz funcionar. Não é um problema de arquitetura. É um problema de gramática — a cidade diz uma coisa com os prédios e diz outra completamente diferente com os salários. E entre essas duas frases mora, ou deveria morar, gente de verdade.

A prefeita falou. Os números estão lá. Os prédios também. O porteiro, esse, vai chegando cedo amanhã, abrindo a porta giratória para o lobby de mármore, cumprimentando o morador que passa sem olhar — e sustentando, com a pontualidade discreta de sempre, uma cidade que ainda não aprendeu a vê-lo.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Prefeita diz que trabalhadores não pagam aluguel em Balneário Camboriú

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL