O preço da guerra na economia global
Análise · Ricardo Mendes A projeção de 1,3% para o crescimento global, emitida pelo Banco Mundial, não é um mero ajuste de rota.
Análise · Ricardo Mendes
A projeção de 1,3% para o crescimento global, emitida pelo Banco Mundial, não é um mero ajuste de rota. É o reconhecimento formal de que o cenário mais adverso para a economia mundial, antes uma possibilidade teórica, está prestes a se materializar. O número, por si, já seria preocupante ao representar menos da metade do ritmo de 2,9% registrado no ano passado. Contudo, seu verdadeiro peso está na causa: a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã.
A análise de Indermit Gill, economista-chefe da instituição, desloca o debate da abstração dos modelos para a concretude da geopolítica. O que era um dos três cenários possíveis em junho — o de hostilidades prolongadas por seis meses ou mais — agora é tratado como iminente. A economia global, portanto, não enfrenta uma desaceleração cíclica, mas um choque de oferta e confiança induzido por conflito armado.
A mecânica da crise
A transmissão do conflito para a atividade econômica se dá por canais clássicos, porém potencializados. A interrupção do tráfego marítimo nos estreitos de Hormuz e Bab el-Mandeb é o gatilho para a primeira onda de efeitos: a inflação. A projeção de 4,5% para o índice global reacenderia pressões sobre os preços num momento em que os principais bancos centrais mal haviam consolidado o controle da inflação pós-pandemia.
A consequência imediata seria uma nova rodada de aperto monetário. A elevação das taxas de juros, necessária para conter os preços, encareceria o custo do capital em escala mundial. Para as nações em desenvolvimento, muitas ainda fragilizadas pela crise da Covid-19 e com altos níveis de endividamento, o impacto seria severo. O aumento no serviço da dívida comprometeria orçamentos, forçando cortes em áreas essenciais como saúde e educação e ampliando a insegurança alimentar, já agravada pela interrupção no fornecimento de fertilizantes.
A declaração do economista-chefe do Banco Mundial é um alerta técnico sobre os custos econômicos da instabilidade. A passagem de um crescimento de 2,9% para uma projeção de 1,3% não é apenas uma revisão estatística. É a quantificação do risco de um mundo onde a cooperação cede espaço ao conflito, com implicações diretas e duradouras para a prosperidade global.
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Banco Mundial projeta crescimento global de 1,3%
Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil
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