O preço da aposta na própria imagem
Análise · Luciano Aragão Houve um tempo em que um contrato de publicidade era a consagração. Hoje, pode ser o começo do fim da credibilidade.
Análise · Luciano Aragão
Houve um tempo em que um contrato de publicidade era a consagração. Hoje, pode ser o começo do fim da credibilidade. Uma pesquisa inédita da organização More in Common, em parceria com o instituto Ipsos-Ipec, revela o custo que o dinheiro fácil das casas de apostas impõe à imagem de atletas e influenciadores digitais: 51% dos brasileiros têm uma visão negativa de quem anuncia as chamadas ‘bets’. Apenas 9% veem a prática com bons olhos.
O dado bruto esconde uma fratura mais profunda. O desgaste é maior justamente nos segmentos de maior valor para o mercado publicitário. Entre os brasileiros com ensino superior, a desconfiança ou perda de confiança em quem anuncia jogos online sobe para 48%. Na faixa de renda acima de cinco salários mínimos, atinge 46%. É uma troca de alto risco: o cachê imediato pela erosão de capital simbólico no longo prazo, junto ao público que define tendências e possui maior poder de compra.
Os adjetivos colhidos pela pesquisa são um inventário da reputação em ruínas. A parcela que desaprova os garotos-propaganda os define como "irresponsáveis", "egoístas" e "manipuladores". Em resumo, gente que pensa apenas no próprio benefício. O atacante do Real Madrid Vinícius Júnior, o narrador Galvão Bueno e uma legião de ex-jogadores, de Cafu a Renato Gaúcho, emprestaram seus rostos a um setor cuja regulamentação ainda engatinha no governo e no Congresso, enquanto o Judiciário começa a lidar com os destroços financeiros deixados pelo caminho.
A percepção pública parece correr mais rápido que a regulação estatal. Com o governo federal e legislativos locais tentando impor regras, a opinião popular já emitiu seu veredito. A Justiça de Campinas pode ter excluído influenciadores de um processo de indenização movido por um apostador que perdeu mais de R$ 100 mil, mas o tribunal da audiência é menos complacente. Para cada contrato milionário assinado, uma fração de confiança se dissolve. A conta, para alguns, chegará mais cedo do que a próxima rodada do campeonato.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Maioria dos brasileiros tem visão negativa de 'publis' de apostas
Fontes: g1 · BBC News Brasil