Trump encena poder como insulto, desafiando a realidade
Análise de Clara Verdi sobre o teatro de Donald Trump, onde a realidade é encenação.
Análise · Clara Verdi
O teatro de Donald Trump tem suas regras. A primeira: a realidade é menos o fato e mais a sua encenação. A segunda: o poder não se exerce apenas pela força, mas pelo insulto. "Que pergunta estúpida", ele diz no Salão Oval, o corpo inclinado, o desdém na voz, ao ser questionado sobre o uso de uma arma nuclear contra o Irã. Não é uma resposta, é uma performance. A performance de quem já venceu e se ofende com a sugestão de que precisaria de mais.
Mas qual vitória? A resposta de Trump, nesta segunda-feira, sobrevoa um campo de escombros de seus próprios objetivos declarados. O Irã, que ele afirma estar "totalmente derrotado militarmente", acabara de lançar mísseis contra bases americanas na Jordânia. As forças dos EUA, por sua vez, atacaram a ilha iraniana de Larak no dia anterior. A guerra, longe de terminada, respira em espasmos de violência calculada — "limitada e precisa", segundo o Comando Central americano; um "confronto contido", na descrição de uma fonte iraniana anônima à Reuters. A linguagem dos dois lados converge, curiosamente, para descrever uma coreografia de agressão que evita o passo final.
A vitória como narrativa
A recusa de Trump à opção nuclear não nasce de um princípio, mas de um roteiro. Usar a bomba seria admitir que o inimigo ainda resiste, que as sanções econômicas e os ataques cirúrgicos não bastaram. Seria rasgar a proclamação de vitória que ele repete para as câmeras. A pergunta da jornalista não foi estúpida por ser implausível, mas por ser impertinente ao espetáculo em cartaz. Ela furou a quarta parede, questionando a premissa do ator principal.
Enquanto isso, o Irã joga seu próprio jogo duplo, esse antigo método do Oriente para lidar com o poder imperial. O presidente Masoud Pezeshkian acena com a retomada das negociações, a porta entreaberta da diplomacia. Ao mesmo tempo, outros prometem retaliação severa. Uma mão oferece o ramo de oliveira; a outra segura a pedra. É a estratégia de quem perde no campo de batalha convencional, mas se recusa a perder a capacidade de perturbar a paz do vencedor.
É possível que estejamos assistindo a uma nova gramática da guerra, onde a declaração de vitória substitui a vitória em si e a troca de mísseis serve apenas para manter a narrativa em movimento. A promessa de Trump de "acertá-los com força" soa, assim, menos como uma ameaça militar e mais como a necessidade de um novo ato para o seu drama político. Afinal, para quem o poder é sobretudo um monólogo, o silêncio do inimigo seria o pior dos finais?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Trump descarta uso de arma nuclear contra Irã em 31 de agosto
Fontes: g1 · CNN Brasil