Seleção carrega 1994 mortos ao entrar em campo no Rose Bowl
O estádio de Pasadena será palco de jogo carregado de simbolismo e memória para a seleção brasileira.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há campos que têm memória. O Rose Bowl, em Pasadena, é um desses lugares. Foi lá, em julho de 1994, que Roberto Baggio bateu por cima o pênalti que encerrou a espera de 24 anos e entregou ao Brasil o tetracampeonato. Carlo Ancelotti estava naquela noite no banco italiano, auxiliar de Arrigo Sacchi, e viu de perto o que o futebol faz com os homens quando a bola para diante da trave. Trinta e dois anos depois, o mesmo Ancelotti está no banco adversário — agora como técnico do Brasil — e o mesmo estádio volta a ser palco de abertura de uma jornada que carrega o número mais pesado do vocabulário verde-amarelo: seis.
O adversário da estreia é Marrocos. Não é qualquer adversário. A seleção marroquina chegou à semifinal da Copa de 2022 no Catar e redefiniu o que se espera de uma equipe africana num torneio mundial. Criou uma identidade, uma forma de pressionar, uma maneira de transformar a compactação defensiva em algo que não parece resignação, mas convicção. Quem entrar em campo contra eles esperando um time que recua e espera vai se surpreender no primeiro intervalo.
O Brasil, por sua vez, carrega o peso de ter ficado fora da última Copa disputada em solo americano — não como ausência na lista, mas como ausência no que importa: não chegou onde se esperava que chegasse. A geração atual tem nomes, tem talento individual reconhecido em clubes da Europa, mas ainda não encontrou no campo das seleções aquela unidade que transforma onze jogadores num time com cara própria. Esse é o problema central que Ancelotti herdou e que esta Copa vai cobrar com juros.
Estreia de Copa não é jogo comum. É o momento em que a narrativa do torneio começa a ser escrita, e o primeiro parágrafo define o tom de tudo que vem depois.
A escolha de Pasadena como cenário desta abertura não é acidental — e a coincidência com o tetra vai aparecer em cada transmissão, em cada chamada, em cada manchete. O risco é que o peso simbólico do lugar sufoque o presente e transforme noventa minutos de futebol real num ritual de evocação. O Brasil não precisa vencer Marrocos invocando 1994. Precisa vencer Marrocos jogando futebol em 2026.
Ancelotti sabe que Copa do Mundo não se ganha na estreia, mas se perde. Um tropeço aqui não elimina ninguém, mas instala a dúvida — e a dúvida, numa seleção que ainda busca sua própria identidade, tem uma capacidade destrutiva que nenhum placar consegue esconder. O técnico que estava no banco vendo Baggio errar agora comanda o time que se beneficiou daquele erro. A história tem senso de humor.
O que se joga hoje em Pasadena não é o hexa. É a primeira frase do argumento que pode levar até ele. E primeiras frases, como qualquer escritor sabe, determinam se o leitor vira a página.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil enfrenta Marrocos em busca do hexacampeonato
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL