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O peso de doze anos e noventa minutos em Kansas City

Análise · Marcos Tibúrcio Há jogos que não terminam no apito final.

O peso de doze anos e noventa minutos em Kansas City
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Análise · Marcos Tibúrcio

Há jogos que não terminam no apito final. O que aconteceu em São Paulo, em julho de 2014, no Itaquerão lotado, ficou guardado em algum lugar entre a memória e a cicatriz. A Suíça havia segurado a Argentina por cento e dez minutos. Havia resistido a Messi, havia construído uma muralha que parecia não ter porta. E então Di María recebeu o passe do mesmo Messi e desfez tudo a dois minutos do fim da prorrogação. Um passe. Uma vida inteira de trabalho, dissolvida num segundo.

Granit Xhaka e Ricardo Rodríguez estavam lá naquela tarde. Estavam em campo, jovens o suficiente para sentir a dor com intensidade e velhos o suficiente para entender o que havia sido perdido. Doze anos depois, ambos voltam a encarar a Argentina — desta vez nas quartas de final do Mundial de 2026, em Kansas City. E Messi também estará lá, recordista de gols e jogos em Copas, artilheiro desta edição. O roteiro parece escrito por alguém com gosto pelo drama.

O que é notável não é apenas a coincidência histórica. É o que ela revela sobre a construção silenciosa de duas carreiras. Xhaka tem 151 jogos pela seleção suíça. Rodríguez, 143. Juntos, ultrapassaram Xherdan Shaqiri e tornaram-se os maiores em partidas de Copa do Mundo pelo país — agora no 18º jogo cada um, num país que disputou apenas 13 edições do torneio. São números que não cabem numa manchete, mas que dizem tudo sobre o que é fazer parte de algo por quinze anos sem nunca ser o nome no cartaz.

E aqui está o drama real: em cada uma das três Copas anteriores que disputaram juntos — Brasil, Rússia, Catar —, a Suíça caiu nas oitavas de final. Sempre nas oitavas. Como se houvesse um teto invisível, uma parede que a geração mais longeva da história suíça simplesmente não conseguia atravessar. Desta vez, já atravessaram. As quartas de final são território inédito para eles, e o adversário que os espera é exatamente o mesmo que encerrou a jornada em 2014.

O técnico da Suíça disse, antes do jogo, que a Argentina não é invencível. É o tipo de frase que se diz quando se acredita — ou quando se precisa acreditar.

Xhaka falou em orgulho, em liderança, em quinze anos conduzindo o mesmo grupo. Rodríguez é descrito por ele como um jogador e uma pessoa fantástica, palavras de quem reconhece um companheiro de travessia, não apenas de vestiário. Há algo de geração em jogo aqui — uma geração que nunca venceu o suficiente para ser lembrada nas primeiras linhas, mas que chegou, persistiu e agora tem uma última chance de reescrever o que ficou em São Paulo.

O futebol guarda essas contas abertas com precisão quase cruel. Kansas City não é São Paulo, a Suíça de 2026 não é a de 2014, e Xhaka e Rodríguez não são mais os jovens que viram Di María correr para o abraço. Mas Messi ainda está lá, com o mesmo número dez e o mesmo dom de decidir. E isso, por si só, já transforma um jogo de quartas de final em qualquer coisa muito maior do que uma quartas de final.

Marcos Tibúrcio

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Xhaka e Rodríguez enfrentam Argentina 12 anos após eliminação em 2014

Fonte: ge