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A Fifa tem um país favorito. Ele se chama EUA

Análise · Marcos Tibúrcio Existe uma certa geometria nos acontecimentos que envolvem a Fifa e os Estados Unidos nesta Copa do Mundo.

A Fifa tem um país favorito. Ele se chama EUA
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Análise · Marcos Tibúrcio

Existe uma certa geometria nos acontecimentos que envolvem a Fifa e os Estados Unidos nesta Copa do Mundo. Não é conspiração — é algo mais banal e, por isso, mais revelador. É negócio. É poder. É a forma como as duas instituições aprenderam a se olhar nos olhos sem pestanejar.

A notícia de que os EUA manifestaram interesse em sediar a Copa do Mundo de Clubes de 2029 chegou pelo Guardian num momento em que o torneio de 2026 ainda está no meio do caminho. O timing não é acidente. É sinal. Quando uma federação começa a conversar sobre o próximo torneio enquanto o atual ainda enche estádios, o que está em jogo não é o futebol em si — é a arquitetura comercial que o envolve. E nessa arquitetura, os EUA construíram o andar mais alto.

Os números desta Copa contam parte da história: 6,5 milhões de ingressos vendidos, recorde da Fifa, com expectativa de superar a meta de US$ 11 bilhões em receita. Para uma entidade que passou boa parte da última década enrolada em escândalos e processos, organizar um Mundial no território americano produziu algo mais precioso do que dinheiro — produziu reabilitação de imagem. É natural que Gianni Infantino queira repetir a dose.

Mas há um episódio desta Copa que ilumina essa relação com uma clareza incômoda. Donald Trump revelou publicamente ter pedido a Infantino que revisasse a expulsão de Folarin Balogun. A Fifa suspendeu a punição. O atacante jogou as oitavas. Não importa a discussão técnica sobre a decisão em si — o que importa é o gesto, a visibilidade do gesto e o silêncio da entidade diante dele. Em nenhuma outra relação entre a Fifa e um governo anfitrião isso teria ocorrido com tamanha desenvoltura. Ou, ao menos, com tamanha publicidade.

Uma candidatura que nasce antes de o processo de candidatura sequer estar aberto não é candidatura. É preferência.

Brasil, Catar, Espanha e Marrocos também aparecem no radar para 2029. O Brasil, aliás, chega com a CBF declarando interesse e com o peso histórico de quem sabe o que é fazer de um torneio um fenômeno de rua. Mas a decisão sobre o torneio de 2025 foi tomada sem processo formal — por unanimidade do Conselho, em junho de 2023, os EUA foram escolhidos. Se esse precedente servir de modelo, a disputa por 2029 pode ser menos competição e mais protocolo.

O que está em construção não é apenas uma agenda de sedes. É uma dependência mútua entre a Fifa e o mercado americano que vai moldando regras, calendários e, pelo visto, punições. O futebol sempre conviveu com o poder — isso não é novidade desde os tempos de João Havelange. A novidade é a velocidade com que essa convivência se tornou pública, quase orgulhosa de si mesma.

Quando a próxima Copa de Clubes for anunciada, provavelmente depois da eleição presidencial da Fifa em abril do ano que vem, o resultado dirá menos sobre qual país merece o torneio e mais sobre qual país a entidade não consegue — ou não quer — dispensar.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: EUA manifestam interesse em sediar Copa de Clubes de 2029

Fonte: ge