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O norueguês de Juiz de Fora que ainda rema

Análise · Marcos Tibúrcio Há uma certa crueldade elegante na geografia do futebol.

O norueguês de Juiz de Fora que ainda rema
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Análise · Marcos Tibúrcio

Há uma certa crueldade elegante na geografia do futebol. Knut Skramstad mora há 13 anos em Juiz de Fora, Minas Gerais — terra de gente que leva o futebol como questão de honra familiar —, e viu o país que o acolheu ser eliminado justamente pelo país que o formou. A Noruega bateu o Brasil. E Knut, professor de inglês, filho de fotógrafo de jornal, homem que aprendeu a amar a bola num campo de rua em Kristiansand, sobreviveu a isso no Brasil. Não é pouca coisa.

Mas o que torna a história de Knut interessante não é o acidente feliz da eliminação brasileira. É o que ela revela sobre o que significa carregar uma seleção quando você está longe — longe do estádio, longe do idioma, longe do inverno que moldou tudo aquilo. Vinte e oito anos sem Copa. Ele tinha 20 quando a Noruega disputou o mundial pela última vez, em 1998. Hoje tem 48, mora no Brasil, ama a Premier League e ainda assim está com a seleção de Stale Solbakken nas semifinais — ao menos na expectativa, ao menos no desejo.

Há algo de revelador na frase que ele usa para falar da Noruega diante da Inglaterra: "Acho ótimo os ingleses serem favoritos. Igual o Brasil era. A gente não tem nada a perder." É o mesmo discurso, a mesma lógica que funcionou uma rodada atrás. Não é ingenuidade — é a sabedoria específica de quem ficou fora do torneio por quase três décadas e aprendeu que a ausência ensina mais do que a presença. Quem não tem história recente numa Copa do Mundo não tem peso a carregar. Pode correr.

O pai tirava fotos atrás do gol. Knut assistia ao jogo ao lado. Foi assim que começou — e o futebol que começou assim raramente termina.

A remada viking virou imagem desta Copa porque é espontânea e coletiva, porque não foi inventada por departamento de marketing nenhum — nasceu das arquibancadas e voltou para elas. Knut a carrega em Juiz de Fora, sem arquibancada, sem compatriotas por perto, provavelmente entre amigos brasileiros que ainda estão processando a eliminação. Essa solidão tem uma dignidade particular.

O IK Start, time da cidade onde ele cresceu, briga contra o rebaixamento na liga norueguesa. A seleção chegou às quartas de final da Copa do Mundo. O futebol raramente distribui glórias com equidade — às vezes o clube sofre enquanto o país voa. Knut conhece essa assimetria desde criança, desde os tempos em que ficava atrás do gol enquanto o pai fotografava o Start. A paixão sobreviveu a tudo isso: à distância, aos 28 anos de espera, ao fuso horário, ao calor mineiro.

A Noruega joga contra a Inglaterra nas semifinais. Knut já avisou: não tem nada a perder. E quando um time não tem nada a perder, a única coisa que resta é jogar — o que, no futebol, não é pouca coisa.

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

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Fonte: ge