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Jogador da seleção brasileira lida com pressão da camisa 10

Marcos Tibúrcio analisa como o jovem talento do futebol brasileiro enfrenta a expectativa de vestir a camisa da seleção.

Jogador da seleção brasileira lida com pressão da camisa 10
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

O telefone de um garoto de 21 anos deve ter tocado. Ou uma mensagem piscou na tela. De repente, Gabriel Bontempo, meio-campista do Santos, descobriu que seu nome estava datilografado numa lista na sede da CBF. Não a lista final, a definitiva, mas a preliminar. A antessala do sonho. A burocracia que precede a glória, ou o esquecimento.

Para o futebol de planilha, o chamado é lógico. É início de ciclo de Copa, Ancelotti tem o dever de observar, e os amistosos contra Austrália e Índia servem de laboratório. O rapaz jogou 40 vezes no ano, marcou cinco gols, deu quatro passes para outros marcarem. Os números fecham a conta. Fim da análise. Mas a camisa da Seleção, mesmo a amarela fantasma de uma pré-lista, não é sobre números. É sobre o que acontece com um homem quando seu nome é pronunciado em rede nacional.

Bontempo se consolidou neste ano. É a palavra que usam nos escritórios, "consolidou". Na Vila Belmiro, nas cadeiras onde o cimento guarda o sal da maresia, a palavra é outra. O menino virou jogador. Aprendeu o tempo da bola, a malícia do corpo, a hora de chegar e a hora de se esconder. Agora, Ancelotti, um italiano que entende de dramas, quer ver de perto. Quer saber se o que se vê no litoral paulista sobrevive a uma viagem para Brisbane ou Calcutá.

É uma aposta, claro. E toda aposta tem seu risco. O peso da camisa amarela já entortou espinhas de gigantes e esmagou a confiança de meninos que pareciam prontos. Uma convocação, mesmo que não se confirme na lista final de quarta-feira, muda a forma como a arquibancada olha para um jogador. O passe que antes era bom, agora precisa ser genial. O chute que ia fora, agora é um erro imperdoável. Bontempo deixa de ser uma promessa do Santos para se tornar "aquele que foi chamado por Ancelotti". Pode ser um impulso. Pode ser um fardo.

Ainda não sabemos se o nome dele será, de fato, gritado pelo técnico no auditório da CBF. Talvez tudo isso seja apenas o protocolo de um plano de renovação. Uma menção honrosa que se perde no dia seguinte. Talvez não.

Mas desde que a notícia correu, algo mudou. O que acontece em campo contra a Austrália ou a Índia é o futuro. O drama real está no presente: o que fará Gabriel Bontempo com o peso deste talvez?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Gabriel Bontempo, do Santos, está na pré-lista da Seleção

Fonte: ge