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O pedágio de Trump e a privatização do mar

Análise · Clara Verdi Existe uma longa tradição de potências marítimas que controlam estreitos e cobram por isso.

O pedágio de Trump e a privatização do mar
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Análise · Clara Verdi

Existe uma longa tradição de potências marítimas que controlam estreitos e cobram por isso. Os otomanos taxaram o Bósforo durante séculos. Os ingleses fizeram do Canal de Suez uma questão de soberania imperial até Nasser lhes tirar o instrumento da mão, em 1956. O que Trump anunciou nesta segunda-feira sobre o Estreito de Ormuz não é, portanto, uma novidade na história do poder naval — mas é uma novidade na forma como essa ambição se enuncia, e é precisamente a forma que revela tudo.

"Nós estamos reinstalando o bloqueio iraniano. Todos os outros países terão o uso aberto e livre do estreito. Por uma questão de justiça, nós seremos reembolsados, em uma taxa de 20% de toda a carga transportada." A declaração, publicada na rede social Truth Social, tem a cadência de um proprietário de estacionamento, não de um chefe de Estado. Trump não está propondo uma operação militar com objetivos estratégicos definidos — está propondo um negócio. E o problema de propor um negócio onde há uma guerra é que o outro lado não é um inquilino inadimplente: é um Estado com capacidade de atacar instalações americanas no Bahrein, no Kuwait, na Jordânia e em Omã, o que fez nesta mesma segunda-feira.

O Estreito de Ormuz não é um ativo americano. É uma faixa d'água de cerca de 33 quilômetros na sua parte mais estreita, ladeada pelo Irã de um lado e por Omã do outro — Omã, o sultanato que tem servido de canal de negociação entre Teerã e Washington, e que agora foi alvejado pelo Irã como punição por sua posição de neutralidade. Cobrar pedágio sobre um território que não se possui, sobre águas internacionais, sobre cargas de países que não participam do conflito: isso não é geopolítica, é extorsão com bandeira.

A Folha de S. Paulo observa que não há hoje força militar americana suficiente na região para criar um corredor de passagem à prova de ataques iranianos. O anúncio precede, portanto, a capacidade de executá-lo.

Essa distância entre declaração e realidade operacional é o padrão Trump — e é o padrão mais perigoso que existe em situações de escalada militar, porque obriga o outro lado a responder à ameaça antes que ela se concretize. O Irã já respondeu: afirmou que atacará qualquer embarcação sem sua autorização e que ajudar os Estados Unidos será tratado como ato de guerra. Os vizinhos do Golfo, que dependem do estreito para exportar e recebem parte da instabilidade em suas bases militares, estão agora num triângulo sem saída confortável.

O cessar-fogo de 17 de junho durou menos de um mês. Trump declarou a trégua morta na semana passada. O que ele propôs hoje não é uma estratégia de contenção — é a monetização de um conflito que ainda não terminou e cuja próxima fase não está clara nem para quem a está conduzindo. Um quinto do petróleo e do gás natural do mundo passa por Ormuz. A ideia de que esse fluxo possa ser "administrado" por Washington como se fosse uma concessão rodoviária diz menos sobre o Irã do que sobre como Trump concebe o poder: como propriedade. O mundo, para ele, é um portfólio com ativos subvalorizados. O Mediterrâneo já foi romano. Ormuz, agora, seria americano.

A história dos impérios marítimos ensina que o controle de estreitos é possível — mas custa exércitos, alianças e séculos. Trump quer o pedágio na segunda-feira.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump anuncia pedágio de 20% em Ormuz e retoma bloqueio a portos

Fontes: Folha de S.Paulo · CNN Brasil

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