La Guaira, ou o que acontece quando a terra cede duas vezes
Análise · Clara Verdi Há um número que o governo venezuelano ainda não pronunciou oficialmente: o de desaparecidos.
Análise · Clara Verdi
Há um número que o governo venezuelano ainda não pronunciou oficialmente: o de desaparecidos. São quase 30 mil pessoas sendo procuradas, dado reunido não por Caracas, mas por uma iniciativa pública — o que diz algo sobre a natureza do Estado que gerencia esse desastre. O número de mortos confirmados, 4.561, é já por si mesmo uma cifra que exige pausa. Mas é a ausência do outro número, o número que o poder prefere não nomear, que revela a dimensão real do que ocorreu em La Guaira desde 24 de junho.
O terremoto duplo — magnitude 7,2 seguida de 7,5 — não foi apenas geologicamente incomum. Foi também politicamente revelador. La Guaira é o portal marítimo da Venezuela, a cidade que conecta Caracas ao mar e ao mundo. Que 800 edifícios tenham sido afetados ali, dos quais 190 desabaram inteiramente, não é só tragédia sísmica. É o colapso de uma infraestrutura urbana que acumulava décadas de desinvestimento, de manutenção adiada, de concreto envelhecido sem reforma. A terra cedeu onde já estava fraco.
Esse é o padrão que se repete nas grandes catástrofes do século — do Haiti em 2010 ao Marrocos em 2023. O terremoto não escolhe os pobres, mas os edifícios sem norma construtiva, sim. A geologia é democrática; a arquitetura, não. O que os tremores fazem, com uma honestidade brutal que a política raramente alcança, é tornar visível o que a normalidade escondia.
Cerca de 2,4 mil socorristas internacionais seguem no país buscando sobreviventes entre os escombros. As equipes brasileiras já retornaram, após resgatar 14 pessoas. Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, foi quem comunicou a atualização dos mortos — não um ministro de saúde, não uma agência civil de defesa, mas o presidente do parlamento. A arquitetura institucional da crise importa tanto quanto a arquitetura dos edifícios que caíram.
A Venezuela de Maduro chega a esse desastre já exausta de si mesma — esvaziada por emigração em massa, por sanções, por um colapso econômico que os dados do próprio governo raramente iluminam com clareza. Receber ajuda internacional e coordenar 2,4 mil socorristas estrangeiros exige uma capacidade estatal que o país vem corroendo há anos. Que o número de desaparecidos não seja oficial não é esquecimento: é escolha. Números oficiais criam obrigações. Obrigações exigem Estado.
Vinte mil pessoas em acampamentos, quase 18 mil desabrigadas, mais de 30 mil sendo procuradas. São magnitudes que, somadas, compõem uma cidade inteira fora de lugar — uma diáspora forçada dentro do próprio país, numa Venezuela que já havia perdido boa parte de sua população para o exterior. O que resta de La Guaira, enquanto as equipes ainda escavam os escombros, é a pergunta sobre o que se reconstrói e para quem. Perguntas que o governo prefere deixar, como os desaparecidos, sem número oficial.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Número de mortos em terremotos na Venezuela sobe para 4.561
Fontes: g1 · CNN Brasil
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