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O PCC terceirizou o seu departamento financeiro

Análise · Luciano Aragão A novidade da operação do Ministério Público de São Paulo não está na descoberta de que o Primeiro Comando da Capital (PCC)…

O PCC terceirizou o seu departamento financeiro
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Análise · Luciano Aragão

A novidade da operação do Ministério Público de São Paulo não está na descoberta de que o Primeiro Comando da Capital (PCC) lava dinheiro. Está no modelo de negócios. A facção, que já opera com uma disciplina empresarial notável em suas atividades-fim, como o tráfico, parece ter adotado a terceirização para seu departamento financeiro. Uma rede de prestadores de serviço, com operadores próprios e contas de fachada, cuidava da "bancarização" dos recursos ilícitos.

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) descreve uma estrutura que atende a todos, de criminosos comuns aos chefes da facção, com a eficiência de um escritório de investimentos. O cliente, como Leonardo Monteiro Moja, o "Léo do Moja", entregava o dinheiro vivo. O operador, como Alexandre Salles Brito, o "Buiu", cuidava do resto: transferências, compras, aparência de legalidade. É a lógica do mercado aplicada ao crime: o especialista foca no que faz melhor.

A arbitragem privada da facção

Mais revelador é o avanço do grupo para a resolução de conflitos privados. Uma disputa por imóveis de luxo na Riviera de São Lourenço, no litoral paulista, não foi parar no Judiciário, mas em um "tribunal do crime". As partes recorreram à facção, que interveio a favor do empresário Cléber Azevedo dos Santos, consolidando a relação de clientela. O PCC não apenas oferece serviços financeiros; ele oferece arbitragem. É uma estrutura paralela ao Estado que não se limita mais às periferias ou ao sistema prisional. Ela media litígios empresariais em condomínios de alto padrão.

O que permitiu aos promotores um raro vislumbre dessa organização foi um erro de cálculo, um descuido quase amador em meio à sofisticação. Um dos participantes das reuniões de arbitragem gravou os encontros. Em áudios de até uma hora, membros da facção se apresentam, detalham seus históricos prisionais e discutem as regras de conduta internas. É o tipo de material que serve de ata e prova, um manual de procedimentos entregue de bandeja à investigação.

A Operação Janus, com seus mandados e bloqueios de bens, ataca o fluxo de caixa. Mas a informação que emerge dos áudios é mais estratégica. Ela mostra uma organização criminosa que se expande para além do tráfico, ocupando vácuos deixados por um Estado lento e caro. O PCC não quer ser apenas um fora da lei. Ele ambiciona ser uma lei paralela, com sistema financeiro e câmara de mediação próprios.

Por Luciano Aragão

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: MP de SP cumpre mandados contra rede financeira do PCC

Fontes: g1 · CNN Brasil