O país que cresce sobre 64 milhões de ausências
Análise · Luciano Aragão O número que mais importa no relatório lançado na terça-feira pelas 16 organizações da Rede EJA e Inclusão Produtiva não é…
Análise · Luciano Aragão
O número que mais importa no relatório lançado na terça-feira pelas 16 organizações da Rede EJA e Inclusão Produtiva não é 64 milhões. É seis. Para cada brasileiro que concluiu a educação básica pela Educação de Jovens e Adultos desde 2021, mais de seis morreram sem terminar os estudos. A demanda pela EJA não está diminuindo porque o problema está sendo resolvido — está diminuindo porque as pessoas que o encarnam estão morrendo. É a distinção entre um país que avança e um país que envelhece em torno de suas próprias lacunas.
O relatório, intitulado "População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas", foi produzido por um consórcio que inclui a Fundação Roberto Marinho, a Unesco e o Unicef. Os dados são, em si, conhecidos em suas linhas gerais. O que a pesquisa faz, com algum mérito metodológico, é decompor o que costuma ser tratado como uma estatística monolítica. Dos 64 milhões, mais de 44 milhões não concluíram sequer o ensino fundamental. Outros 19 milhões pararam no ensino médio. E menos de 2% desse universo têm acesso à única política pública desenhada especificamente para eles.
Há uma arquitetura de abandono aí que não é acidental. O Estado brasileiro construiu, ao longo de décadas, um sistema de ensino regular que expulsa — ou deixa escapar — uma parcela considerável de sua clientela, e depois oferece a essa parcela uma estrutura alternativa tão subfinanciada e estigmatizada que quase ninguém a usa. A EJA virou o atalho que ninguém toma porque todos sabem que o atalho está esburacado.
Entre as pessoas sem ensino fundamental, 43,1% participam do mercado de trabalho. Entre as que concluíram o ensino médio, 73,5%. Essa diferença de trinta pontos percentuais é o mapa da vulnerabilidade expressa em número de empregos.
O estudo calcula que o Brasil poderia gerar R$ 66 bilhões de renda extra por ano — 0,6% do PIB — se essa população tivesse concluído a educação básica. É um exercício hipotético com utilidade política clara: transformar um problema social em argumento fiscal. A tática é legítima, porque governos que resistem ao custo de educar adultos raramente resistem ao custo de não educá-los quando o argumento é apresentado em reais por ano.
O timing do lançamento não é neutro. A rede declarou explicitamente que quer influenciar o novo Plano Nacional de Educação, que definirá as metas da próxima década. O PNE é, na prática, o documento em que o país decide quais problemas educacionais merecem meta mensurável e quais merecem apenas menção honrosa. A EJA historicamente recebe a segunda categoria.
O que os dados da pesquisa descrevem não é uma falha de política pública isolada. É a sedimentação de um modelo econômico que por muito tempo encontrou utilidade na mão de obra barata e pouco escolarizada, e que agora se defronta com os custos de produtividade desse arranjo. Francisca Laura Silva, que ficou trinta anos longe da escola por causa do trabalho doméstico e do cuidado da família, representa os 64 milhões com mais precisão do que qualquer gráfico. Não como exceção, mas como regra.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Brasil tem 64 milhões de pessoas sem educação básica concluída
Fontes: g1 · CNN Brasil