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Copa do Mundo revela novo Zico em domingo memorável

Análise · Marcos Tibúrcio Há coisas que o futebol faz com a memória que nenhum outro esporte consegue. Não é nostalgia — é sobreposição.

Copa do Mundo revela novo Zico em domingo memorável

Análise · Marcos Tibúrcio

Há coisas que o futebol faz com a memória que nenhum outro esporte consegue. Não é nostalgia — é sobreposição. Uma imagem nova cai sobre uma antiga e as duas ficam ali, tremendo juntas, sem que você consiga separar uma da outra. Foi o que aconteceu aos 13 minutos do segundo tempo, quando Mostafa Ziko, egípcio, marcou de cabeça contra a Nova Zelândia nesta Copa do Mundo de 2026 — e a internet, coletivamente, parou para respirar.

O meme é fácil demais para ser ignorado e profundo demais para ser descartado. Em 1982, na Espanha, outro Zico — o Arthur Antunes Coimbra, o verdadeiro flagelo dos goleiros do mundo inteiro — também castigou a Nova Zelândia. Aquela seleção brasileira que não ganhou a Copa, mas ganhou a história, marcou quatro vezes sobre os neozelandeses. Zico fez três. Três. O número já era uma sentença estética antes de qualquer análise.

Quarenta e quatro anos depois, a coincidência chegou com sotaque árabe e nome transliterado de duas formas possíveis — Zico ou Ziko, dependendo do teclado e do passaporte. Não importa a grafia. Importa que a Copa, como sempre faz quando quer chamar atenção para si mesma, usou um jogador egípcio e um adversário do Pacífico para invocar o espírito de Tóquio, de Flamengo, de Galvão dizendo "é Zico" antes que a bola entrasse.

O futebol não repete. Ele ecoa. E às vezes o eco chega com sotaque diferente, camisa diferente, num estádio que nem existia quando o original aconteceu.

Mas há algo além da brincadeira. O Egito voltou à Copa depois de décadas de ausência — a última participação antes do ciclo recente ficou tão distante que virou dado de almanaque. Quando um país assim chega ao torneio, cada gol carrega um peso desproporcional. Mostafa Ziko não marcou apenas para seu time. Marcou para cada egípcio que esperou esse momento sem ter certeza de que ele viria. A cabeçada não foi só técnica — foi o tipo de lance que um povo inteiro sente no estômago antes de ver na tela.

A Nova Zelândia, por sua vez, ocupa um lugar curioso nessa história. Não é carrasco de ninguém, mas tampouco é figurante. Chega à Copa por mérito de uma confederação que briga palmo a palmo por cada vaga, e tem o direito de ser tratada como adversário — não como cenário. Que tenha sido o pano de fundo desta coincidência não diminui ninguém. Às vezes o futebol escolhe você para ser o coadjuvante de uma cena que não é sua, e não há apelação possível.

O que fica desta tarde não é o resultado — que o placar diga o que quiser. O que fica é a imagem de um egípcio chamado Zico erguendo a cabeça para empurrar a bola pra dentro, e do outro lado do mundo, ou do outro lado da memória, um brasileiro de 1982 fazendo exatamente o mesmo gesto, como se o tempo tivesse dobrado sobre si mesmo num estádio desta Copa estranha e múltipla que os Estados Unidos, o México e o Canadá agora abrigam juntos.

Marcos Tibúrcio, Esporte — Xaplin

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Egípcio Mostafa Zico marca contra Nova Zelândia em Copa do Mundo

Fonte: ge