Nome histórico retorna quarenta e quatro anos depois
Há nomes que não morrem. Viram mito, depois lenda, depois algo que já não precisa de explicação.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há nomes que não morrem. Viram mito, depois lenda, depois algo que já não precisa de explicação — basta pronunciar. Zico é um desses. E agora, quarenta e quatro anos depois de Espanha 1982, o nome voltou a uma Copa do Mundo numa partida contra a Nova Zelândia, com um gol de cabeça. Não é o mesmo Zico, evidentemente. É Mostafa Ziko, egípcio, número nas costas e história própria. Mas o futebol tem dessas coincidências que parecem roteiro — e seria desonestidade intelectual fingir que não importa.
O gol saiu aos 13 minutos do segundo tempo. Cabeçada. O Egito venceu a Nova Zelândia. Isso, na frieza dos fatos, é o que aconteceu. Mas o futebol nunca coube na frieza dos fatos — e quem só enxerga o placar perde a maior parte do jogo.
O original Zico marcou duas vezes contra a Nova Zelândia em 1982, numa Copa que o Brasil não ganhou e que, exatamente por isso, ficou maior na memória do que muitas que foram ganhas. Aquela seleção perdeu para a Itália, saiu sem a taça e entrou para sempre no panteão do futebol impossível — o time que era bom demais para o mundo em que jogava. Zico era o coração daquilo. Artilheiro, meia, poeta da bola. O nome carregava um peso específico.
Quando um jogador egípcio chamado Ziko marca de cabeça contra a Nova Zelândia numa Copa do Mundo, a história não está se repetindo — está fazendo uma citação.
Mostafa Ziko não pediu essa comparação. Provavelmente a recebe com o misto de orgulho e incômodo de quem sabe que vai carregar o sobrenome alheio por um bom tempo. É o fardo e o presente dos nomes grandes: ninguém escolhe herdar, mas quem herda não escapa. O gol que marcou hoje vai ser explicado, nas próximas semanas, sempre com aquele preâmbulo — "assim como em 1982". E tudo bem. O futebol precisa dessas pontes entre gerações para fazer sentido além do calendário.
O Egito, de sua parte, voltou a uma Copa do Mundo carregando a expectativa de um continente que produz futebol há décadas e ainda busca o gol que mude definitivamente a conversa. Uma vitória na fase de grupos, num torneio que se joga em três países e com formato expandido, não resolve isso. Mas começa uma frase. O gol de Ziko — com k, egípcio, 2026 — é o primeiro parágrafo.
O nome que voltou não é o mesmo nome. Mas no futebol, como na literatura que Nelson Rodrigues entendia melhor do que qualquer técnico, o que importa não é a identidade do personagem. É o que ele carrega quando entra em campo.
Mostafa Ziko carregou, ontem, quarenta e quatro anos de história numa cabeçada aos 13 minutos do segundo tempo. E marcou.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge