O Mirassol de Guanaes não dobra, nem para a Copa
Análise · Marcos Tibúrcio Quarenta dias de silêncio.
Análise · Marcos Tibúrcio
Quarenta dias de silêncio. O mundo parou para a Copa do Mundo, os holofotes migraram para os estádios americanos, e Rafael Guanaes ficou no CT do Mirassol, trabalhando. Quando voltou a falar, não havia arrependimento nem ansiedade no discurso — havia a calma de quem usou o intervalo para fazer exatamente o que planejava.
A frase que ele escolheu para resumir a janela diz mais do que parece: "Identidade não se negocia." Num futebol que frequentemente troca de filosofia conforme a tabela de classificação, a declaração é quase um ato de rebeldia. Guanaes tem quase quinze anos de carreira construídos sobre convicções táticas que ele se recusa a abandonar por pressão de resultado ou de mercado. O Mirassol de 2026 não é acidente — é acumulação.
Seis reforços anunciados no período: o zagueiro Gabriel Knesowitsch, o atacante Bruno Santos, o lateral-direito Elias, o volante Japa — vindo do Cruzeiro por empréstimo —, e os atacantes Gustavo Silva e Fernandinho. A lista importa menos pelo tamanho do que pelo critério explicitado pelo treinador. Ele não queria quantidade. Queria qualificação. E, acima disso, queria jogadores que desejassem estar ali — numa cidade do interior paulista, disputando três competições simultaneamente, sob um projeto que exige adesão antes de exigir técnica.
"Quem vem para cá precisa querer muito estar aqui."
Essa exigência não é discurso motivacional de coletiva. É critério de seleção. O Mirassol chegou à Libertadores por ter uma maneira de jogar reconhecível, coletiva e difícil de desmontar — e Guanaes sabe que esse patrimônio se dissolve no momento em que o elenco passa a ser montado por outros critérios. A chegada de Fernandinho, descrita pelo treinador como alguém que tem "identificação com o Mirassol e com o torcedor", ilustra a lógica: o jogador precisa entrar na cultura antes de entrar em campo.
O que está em jogo no segundo semestre é de uma proporção que o clube jamais enfrentou. Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil ao mesmo tempo. Para um Mirassol que chegou a essa condição sem abandonar sua origem, o risco real não é o calendário — é a tentação de se tornar outro. De inflar o elenco, de contratar por nome, de ceder àquela voz que sempre aparece nos corredores dos clubes menores quando a régua sobe: "agora é diferente, precisa mudar."
Guanaes respondeu a essa voz antes que ela se tornasse pressão pública. A intertemporada foi o maior período de trabalho contínuo que ele teve desde que chegou ao clube, e ele o usou para integrar, para entrosar, para plantar identidade nos novos antes de qualquer bola rolar. Não é detalhe — é método.
O Mirassol volta às competições carregando algo raro no futebol brasileiro: um técnico que sabe exatamente o que quer e recusa negociar o núcleo disso. Se funcionar, é projeto. Se não funcionar, também é. De qualquer forma, é honesto — e honestidade tática, no futebol, já é uma forma de coragem.
Marcos Tibúrcio, chefia de Esporte da Xaplin
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge