Salário mínimo de R$ 1.741 reflete projeções econômicas para 2027
A proposta de R$ 1.741 para o salário mínimo em 2027, incluída na Lei Orçamentária, demonstra as expectativas do governo para a economia.
Análise · Ricardo Mendes
A cifra de R$ 1.741, proposta para o salário mínimo em 2027, não é apenas um número no projeto da Lei Orçamentária. É a materialização de uma escolha política e a ressurreição de uma fórmula: a correção pela inflação do ano anterior, acrescida da variação do Produto Interno Bruto de dois anos antes. O valor, R$ 24 acima da estimativa prévia, representa um aumento nominal de 7,4% sobre os R$ 1.621 vigentes. É um ganho real. E, portanto, um custo real.
A política de valorização do piso nacional, interrompida na gestão anterior e retomada em 2023, é um dos pilares do discurso do governo. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, não hesita em contrastar o modelo com o que chama de "fila do osso", referindo-se aos reajustes que apenas repunham a inflação. A mensagem é clara: o crescimento econômico deve ser partilhado com a base da pirâmide. O método para isso é a indexação. A mesma ferramenta que o Plano Real, obra civilizatória, lutou para desmontar.
Não há debate sobre a necessidade de recompor o poder de compra. A questão, para um economista que serviu ao Tesouro Nacional, reside nos efeitos de segunda e terceira ordem. O salário mínimo não é apenas remuneração; é um indexador de despesas, notadamente previdenciárias. A política que eleva a renda na base também pressiona uma das maiores rubricas do Orçamento. O ganho de hoje pode se traduzir na restrição fiscal de amanhã. É a tensão clássica entre o social e o fiscal, reeditada.
A declaração de Durigan, ao citar o ex-ministro Paulo Guedes e sua defesa da desvinculação do mínimo da Previdência, expõe a profundidade do dissenso. De um lado, a crença de que a vinculação é um mecanismo de justiça social; de outro, a visão de que ela cria uma rigidez orçamentária insustentável. O governo atual escolheu seu lado. Aposta que o crescimento do PIB — o mesmo que garante o aumento real — será suficiente para acomodar a despesa expandida.
Este quadro, no entanto, é efêmero. A projeção de R$ 1.741 depende de uma inflação medida pelo INPC que ainda não se realizou. Se o índice vier acima do esperado até novembro de 2026, o valor — e o gasto atrelado a ele — será maior. A fórmula é transparente, mas seus resultados finais são cativos de variáveis que nenhum governo controla por decreto.
O Orçamento é um documento sobre o futuro, mas escrito com a tinta do passado. Ele reflete as escolhas de hoje, herdando os problemas de ontem. A que custo se dará essa partilha do crescimento? A resposta ainda não está na lei orçamentária.
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Orçamento de 2027 prevê salário mínimo de R$ 1.741
Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo