O mês em que a bola dos homens irá parar
Análise · Marcos Tibúrcio Julho de 2027 terá 31 dias de silêncio. Ou de um barulho novo.
Análise · Marcos Tibúrcio
Julho de 2027 terá 31 dias de silêncio. Ou de um barulho novo. A Confederação Brasileira de Futebol avisou, com a formalidade de um memorando, o que a arquibancada já intuía: os campeonatos masculinos irão parar. O motivo tem nome e data: Copa do Mundo Feminina, de 24 de junho a 25 de julho. A bola, por ordem superior, vai rolar para elas.
A Fifa chama a pausa de “requerimento”. A CBF, de “parada obrigatória”. Thiago Jannuzzi, diretor de operações do torneio, diz que a medida “quase que inviabiliza o resto do calendário” se não for adotada, já que os grandes palcos — Maracanã, Mineirão, Beira-Rio — estarão cedidos. São palavras de planilha, de quem organiza o evento. Na cadeira cativa e na geral, a linguagem é outra. A pergunta não é sobre logística, mas sobre hábito. Sobre o que fará o homem que, por quarenta anos, soube que domingo é dia de ver seu time, com seus heróis, em seu estádio.
Um projeto de país
O governo e a entidade máxima do futebol tratam a Copa como um “projeto de país”. Falam em R$ 8,8 bilhões na economia, em dois milhões de visitantes, em um plano nacional para o futebol feminino. Os números são imensos, quase abstratos. A realidade palpável será a do Maracanã iluminado para receber a seleção da Austrália, enquanto a do Flamengo treina a portas fechadas. Será a Neo Química Arena aberta para os Estados Unidos, enquanto a do Corinthians espera o calendário voltar a andar.
Não se trata de ser contra. Trata-se de entender a troca. O futebol, aqui, nunca foi apenas um esporte; é um rito semanal, uma herança de pai para filho, um assunto que preenche o vazio da segunda-feira. Por um mês, esse rito será suspenso. A CBF não pede, ela comunica. A Fifa não sugere, ela exige como condição para a festa. E o torcedor, que paga o ingresso e move a engrenagem, assiste à mudança de protocolo.
A candidatura do Brasil à sede, aprovada em 2023, já continha a cláusula. Não é surpresa para os dirigentes, que agora recebem a notificação oficial. É, no entanto, uma novidade existencial para o adepto do jogo, aquele que nunca precisou de um estudo da FGV para justificar sua presença no estádio.
O futebol de mulheres, por trinta dias, deixará de ser um evento para se tornar o único evento. Tomará os gramados, os horários nobres, as conversas de bar. Para isso, o futebol de homens terá de sair da sala. É um gesto inédito, uma inversão de poder simbólica e prática.
Setecentas e trinta mil pessoas, metade delas estrangeiras, já se inscreveram para comprar ingressos. Há uma demanda real, uma curiosidade latente. A questão que fica não é se os novos protagonistas conseguirão encher os estádios. É outra.
O que fará o antigo dono da casa quando a porta se fechar?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge