Venezuela enfrenta crise humanitária com mortes não reconhecidas pelo Estado
A Venezuela não contabiliza mortes causadas pela crise política e econômica, impedindo o luto oficial de familiares.
Análise · Clara Verdi
Há uma gramática específica do desastre na Venezuela contemporânea, e ela se repete com uma regularidade que já não surpreende, mas que ainda deveria envergonhar. Quando algo vai mal — uma tragédia, um colapso, uma morte em circunstâncias obscuras —, são as famílias que assumem o trabalho que caberia ao Estado. São elas que buscam, que identificam, que carregam. O Estado, nesse intervalo, aparece tarde, mal e com a pose de quem fez o suficiente.
O que acontece agora nas praias próximas a Caracas — que eram, até há poucos dias, o destino de descanso dos moradores da capital, a uma hora de carro, o litoral familiar de um país que ainda guarda essa memória de normalidade — é a versão mais crua desse padrão. Famílias lideram as buscas pelos próprios mortos. Se revoltam com as autoridades. A revolta não é surpresa: é o resultado acumulado de anos em que a promessa de proteção estatal foi sendo substituída pela certeza de seu abandono.
O detalhe geográfico importa mais do que parece. Não estamos falando de uma região remota, de difícil acesso, esquecida pela administração central. Estamos falando de um corredor entre Caracas e o mar, entre o poder e o litoral, entre a capital que concentra o que resta de institucionalidade e um pedaço de costa que os próprios caraqueños consideravam seu. A tragédia não aconteceu na periferia do mapa venezuelano. Aconteceu em seu centro nervoso simbólico.
Quando o Estado falha nos seus próprios arredores — nas praias onde seus funcionários também descansam —, a falha deixa de ser logística e se torna política.
A revolta das famílias contra as autoridades carrega, portanto, uma densidade que vai além da dor imediata. É a articulação visceral de uma desconfiança sedimentada. Quem cresceu na Venezuela das últimas duas décadas aprendeu que o Estado não é um protetor, mas um interlocutor caprichoso — presente quando quer controlar, ausente quando precisa responder. A busca pelos corpos feita pelas próprias famílias não é apenas tragédia: é a demonstração prática de que esse aprendizado foi internalizado.
Do exterior, a tendência é enquadrar cenas assim como mais um sintoma do colapso venezuelano, mais uma evidência para o dossiê já extenso da falência do regime. Esse enquadramento não está errado, mas é insuficiente. O que se perde nele é a escala humana do que significa ter de procurar o corpo do seu filho ou da sua mãe porque ninguém mais vai fazê-lo, e ao mesmo tempo enfrentar a autoridade que deveria ter chegado antes, que deveria ter evitado, que deveria estar ali agora com respostas em vez de justificativas.
A Venezuela de Maduro produziu muitos tipos de silêncio. O silêncio das famílias que buscam seus mortos e se revoltam — e mesmo assim continuam buscando — é talvez o mais difícil de traduzir para quem observa de fora. Não é resignação. É uma forma de sobrevivência que o Estado ensinou por omissão.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Famílias buscam corpos na Venezuela e se revoltam com autoridades
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL