Ancelotti decide poupar Neymar para clássico contra Flamengo
Carlo Ancelotti poupou Neymar na última partida, gerando dúvidas sobre qual será o próximo jogo do atacante. Confira a análise.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há uma pergunta que Carlo Ancelotti não respondeu na coletiva — e que nenhum repórter conseguiu formular com a precisão necessária. Não é "Neymar vai jogar?". É: quando, afinal, o contexto será suficiente?
Contra a Escócia, na estreia, foram pouco mais de 15 minutos. Uma vitória por 3 a 0 que já estava embalada quando o camisa 10 entrou. Agora, diante do Japão, a mesma gestão: banco, espera, contexto. A palavra que Ancelotti escolheu — contexto — é uma daquelas que carregam mais do que dizem. Significa que há um plano. Significa também que há uma dúvida.
O treinador italiano tem razão técnica da sua parte. Neymar voltou de lesão, tem 34 anos e uma carreira que foi mais vezes interrompida do que concluída na última meia década. Administrá-lo é, em algum grau, um ato de responsabilidade com o próprio jogador e com a seleção. Isso ninguém discute.
O que se discute — ou deveria — é o que essa gestão revela sobre o papel que Neymar ocupa neste Brasil de 2026. Não é mais o eixo em torno do qual o time se organiza. É uma carta na manga. Uma possibilidade. Um argumento para o segundo tempo se a conta não fechar.
Carta na manga é recurso. Recurso não é protagonista. E Neymar passou a vida inteira sendo protagonista — às vezes o único — desta seleção.
Há algo de melancólico nesse cálculo, mas também algo de honesto. Ancelotti não está fingindo que Neymar é o que foi. Está tentando usar o que ele ainda é — imprevisível, capaz de resolver em espaços curtos, nome que desorganiza defesas só de aparecer no campo — sem exigir dele o que o corpo talvez não entregue por 90 minutos.
O problema é que o Japão não é a Escócia. É uma equipe que defende em bloco, transita rápido e não colapsa diante de nome em camisa. Se o Brasil precisar de Neymar, precisará de um Neymar que entre frio num jogo quente — e faça a diferença em questão de minutos. É muita exigência para um homem que não tem ritmo de jogo acumulado.
A gestão de Ancelotti pode ser impecável e ainda assim produzir um resultado amargo. Porque há situações em que o contexto nunca chega na hora certa. Em que o jogo exige a decisão antes que o técnico esteja pronto para tomá-la. E aí o banco vira um lugar onde a oportunidade envelhece.
Neymar no banco não é tragédia. É uma equação aberta. O que preocupa não é onde ele começa o jogo contra o Japão — é se alguém, dentro da comissão técnica ou fora dela, sabe de verdade qual é o jogo em que ele precisa estar desde o início. Antes que a Copa do Mundo 2026 responda por eles.
**Marcos Tibúrcio**, Esporte — XaplinMarcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Neymar será banco novamente contra Japão, diz Ancelotti
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL