Xaplin On
Brasília
Portal Xaplin — jornalismo vivo • a revista não dorme
USD EUR GBP JPY BTC ETH SOL BNB

O Lorde já tinha subido a calçada

Crônica · Heitor Graça O cachorro chamava Lorde e tinha feito sua parte.

O Lorde já tinha subido a calçada
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

O cachorro chamava Lorde e tinha feito sua parte. Subiu a calçada primeiro, como manda o treinamento, como manda a confiança que um animal deposita num homem e um homem deposita num animal. O percurso estava terminado. Era noite de domingo em Águas Claras.

Victor Uchoa, 44 anos, servidor público, cego, sentiu o choque na perna direita antes de entender o que havia acontecido. O corpo foi jogado para frente e ele teve o reflexo — esse reflexo que a gente nem sabe que tem até precisar — de estender o antebraço para não bater a cabeça no chão. Fraturou o tornozelo. Machucou o braço. Usará gesso por pelo menos trinta dias.

O carro subiu a calçada, bateu nele e no Lorde, e foi embora.

Foi embora.

Tem uma câmera de segurança de um comércio ali perto que gravou tudo. Mostra Victor atravessando a rua com o cão, subindo a calçada, e então o carro indo na direção deles como se a calçada fosse uma extensão da pista, como se os dois ali — homem e cachorro — fossem detalhe de paisagem. Mostra os dois caindo. Mostra o carro desaparecendo.

O que a câmera não consegue mostrar, porque câmera nenhuma consegue, é o que passa pela cabeça de quem decide não parar.

Um pedestre que passava pelo local foi quem ajudou Victor. Um desconhecido, desses que a cidade produz em silêncio e sem crédito, acionou o Corpo de Bombeiros. O motorista segue não identificado. Victor registrou boletim na 21ª Delegacia de Taguatinga e agora carrega no tornozelo uma fratura que não é só fratura — é a marca de uma fuga.

Fico pensando no Lorde. No treinamento que ensina um cão a subir a calçada primeiro, a proteger quem ele guia. Fico pensando que o cachorro fez tudo certo. Victor fez tudo certo. E mesmo assim havia um carro disposto a desfazer tudo isso em segundos e um motorista disposto a fingir que nada havia acontecido enquanto acelerava para longe.

Domingo à noite. Calçada de Águas Claras. Um homem no chão, um cachorro ao lado, um estranho que para, e um carro que some.

O Lorde já tinha subido. Fez o que devia. Alguém mais precisava fazer.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Motorista atropela homem cego em calçada e foge sem prestar socorro

Fontes: g1 · UOL