IBGE divulga impacto econômico da tragédia de janeiro
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística publicou análise sobre as consequências econômicas dos desastres naturais ocorridos em janeiro de 2026.
Análise · Luciano Aragão
Numa quinta-feira de janeiro de 2026, o IBGE publicou um número que o governo federal preferirá discutir em abstrato: 349,4 mil pessoas mudaram de endereço no Rio Grande do Sul por causa das enchentes de abril e maio de 2024. Não é cifra de desabrigado temporário, daqueles que voltam quando a água baixa. É gente que foi embora e não voltou. Quase 350 mil endereços reescritos.
O dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística tem a frieza própria de quem conta em vez de narrar. E é exatamente essa frieza que o torna insuportável de ignorar. Dezoito meses após as enchentes, o que se tem é um recenseamento do desarraigo — a tentativa de transformar em estatística o tipo de perda que não aparece em boletim de danos materiais.
Vale a pena insistir no que o número não diz, porque o silêncio em torno dele é parte do argumento. Ele não diz quantos voltaram. Não diz para onde foram. Não diz se foram para outro município gaúcho, para outro estado, para a periferia de Porto Alegre ou para a casa de um parente em Caxias do Sul. O IBGE estimou o deslocamento; a política pública precisaria estimar o destino. Há uma diferença enorme entre as duas coisas, e o Brasil, sistematicamente, financia a primeira e ignora a segunda.
As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul foram apresentadas, na época, como evento climático excepcional — o que tecnicamente podem ter sido. Mas excepcionalidade climática não suspende a obrigação de governança. O que o dado do IBGE revela, com o distanciamento próprio de um ano e meio, é que o desastre produziu um êxodo de proporções comparáveis a remoções urbanas forçadas que, quando planejadas pelo Estado, já seriam consideradas traumáticas. Aqui aconteceu sem plano, sem escolha e, ao que tudo indica, sem registro sistemático de para onde cada família foi.
Deslocar 349 mil pessoas é, em termos de magnitude, esvaziar uma cidade do tamanho de Santa Maria — a quinta maior do estado — e não saber ao certo onde ela foi parar.
O problema não é que o IBGE tenha demorado para publicar a estimativa. Levantamentos desse tipo têm metodologia própria e tempo necessário. O problema é que, na ausência de um sistema nacional de rastreamento de deslocados por desastre, o instituto acabou fazendo, depois, o que deveria ter sido feito durante — mapear quem saiu, para que a reconstrução soubesse a quem alcançar. Sem esse mapa, reconstruir casas em lugares que as famílias não habitam mais é um exercício de arquitetura sem endereço.
O Rio Grande do Sul de 2026 é um estado que o desastre redesenhou demograficamente. O IBGE colocou um número nisso. Falta alguém decidir o que fazer com ele.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Enchentes de 2024 no RS deslocaram 349 mil pessoas, diz IBGE
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL