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Campo de golfe na Venezuela expõe desigualdade durante crise

Fotografia de campo de golfe em meio à crise humanitária revela contraste entre luxo e pobreza na Venezuela.

Campo de golfe na Venezuela expõe desigualdade durante crise

Análise · Clara Verdi

Há uma fotografia que a reportagem não precisa descrever para que você a veja: o verde imaculado das ruas de um campo de golfe, projetado para o lazer dos que nunca souberam o que é dormir sem teto, ocupado agora por famílias que perderam tudo num tremor de terra no noroeste venezuelano, em La Guaira. A imagem funciona como metáfora tão perfeita que chega a parecer forçada — e é precisamente por isso que não se pode deixá-la passar sem examiná-la com cuidado.

A Venezuela de Hugo Chávez prometeu, entre outras coisas, abolir a distinção entre o campo de golfe e a favela. Não aboliu. O que os terremotos fizeram foi colocar as duas realidades no mesmo enquadramento geográfico, com uma brutalidade que nenhum decreto poderia simular. Os desabrigados que hoje ocupam aquele gramado não estão lá por uma política de redistribuição. Estão lá porque a terra se moveu e as casas não resistiram.

Isso importa porque a leitura fácil — "olha, a crise bolivariana jogou os pobres no campo de golfe dos ricos" — captura algo verdadeiro e ao mesmo tempo esconde o essencial. O que a imagem revela não é uma ironia política localizada, mas uma condição estrutural que atravessa décadas e governos: a da cidade latino-americana construída sobre a exclusão, onde o luxo e a precariedade habitam uma proximidade que só se torna visível quando o chão cede. La Guaira não é exceção. É a regra que o terremoto tornou inegável.

O nível de destruição na região noroeste é difícil de compreender, registra a reportagem. A frase merece atenção. "Difícil de compreender" não é uma falha de linguagem — é um diagnóstico sobre o que acontece quando a escala do sofrimento ultrapassa os instrumentos que usamos para narrar o sofrimento.

Há uma longa tradição, nos estudos sobre desastre, de tratar o terremoto como evento natural que expõe desigualdades sociais preexistentes. Mike Davis escreveu sobre isso com precisão cirúrgica em relação às cidades do Sul Global. O que os terremotos revelam, em geral, não é o acaso da natureza, mas a gramática da vulnerabilidade: quem construiu onde, com que material, com que acesso a serviços de emergência, com que capacidade de reconstruir. A Venezuela de 2026, exausta por uma crise econômica que já dura mais de uma década e por um estado que foi perdendo progressivamente a capacidade de prover o básico, chega a este momento sem reservas — nem materiais nem institucionais.

O campo de golfe como refúgio é, nesse sentido, menos uma ironia e mais uma confissão. Confissão de que o Estado não tem onde colocar seus desabrigados a não ser nos espaços que o mercado construiu para os que nunca precisariam de abrigo emergencial. Que a única infraestrutura disponível, de imediato, seja aquela originalmente destinada ao ócio dos privilegiados diz algo sobre a ordem das prioridades que presidiu décadas de urbanização — tanto no período anterior a Chávez quanto depois dele.

A história não começou com o tremor. O tremor apenas retirou a última camada de verniz.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Campo de golfe vira refúgio para desabrigados por terremotos

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL