O hospital no alto, e o que o morro sabe
Crônica · Heitor Graça Tem uma coisa que a chuva ensina, e a gente só aprende quando ela já foi embora.
Crônica · Heitor Graça
Tem uma coisa que a chuva ensina, e a gente só aprende quando ela já foi embora. Ensina devagar, com a persistência de quem tem todo o tempo do mundo e nenhuma pressa de provar o ponto.
Em Correia Pinto, serra catarinense, dezesseis mil pessoas acordaram um dia com a notícia de que o hospital da cidade — aquele que fica no topo do morro, o mesmo morro que a chuva olha de baixo pra cima com aquela paciência que assusta — estava interditado. A Prefeitura seguiu recomendação do Ministério Público do estado. O prédio foi fechado. O morro continua lá, claro, inabalável na sua sabedoria úmida.
Eu fico pensando nos pacientes que passaram por aquela entrada. No senhor que subiu aquela ladeira de táxi, segurando o lado esquerdo do peito. Na mãe que levou o filho às três da manhã com febre de quarenta. No rapaz que saiu de lá com o braço engessado e desceu a pé, manco, mas desceu. Nenhum deles, aposto, olhou para o chão embaixo do hospital e pensou: isto aqui pode ceder.
É assim com as coisas que ficam. A gente não olha pra elas. Elas ficam tanto que viram paisagem, e paisagem não tem risco, paisagem é só fundo de fotografia.
Mas o morro sabe. O morro vai acumulando água nas entranhas com a discrição de quem não quer alarmar ninguém, e um dia o Ministério Público olha pro morro e diz: não dá.
Não sei como é o hospital de Correia Pinto por dentro. Se tem corredor com cheiro de hospital, aquele cheiro que é o mesmo em Copacabana e na serra catarinense e em qualquer lugar onde a gente vai quando o corpo pede socorro. Se tem uma recepcionista que conhecia todo mundo pelo nome, porque em cidade de dezesseis mil é assim, a recepcionista conhece. Se tinha um plantão de madrugada em que o médico olhava pela janela e via o vale lá embaixo, a cidade quieta, e sentia aquela solidão boa de quem está acordado enquanto todos dormem.
Agora o hospital está fechado. O morro está de pé. E em algum lugar de Correia Pinto, alguém que precisar de socorro vai ter que encontrar outro caminho — que talvez não passe pelo alto, que talvez seja mais longo, que talvez chegue do mesmo jeito.
A chuva, essa, não tem pressa nenhuma.
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: Prefeitura interdita hospital em morro com risco de deslizamento em SC
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.