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O homem que não se lembrava

Crônica · Heitor Graça Há um momento no vídeo — sem som, como costumam ser as piores coisas — em que o outro homem abre os braços. Só isso.

O homem que não se lembrava
Capa tipográfica · Xaplin

Crônica · Heitor Graça

Há um momento no vídeo — sem som, como costumam ser as piores coisas — em que o outro homem abre os braços. Só isso. Abre os braços no meio da calçada de Francisco Beltrão, no Paraná, diante de uma cena que ele provavelmente não esperava encontrar numa tarde de domingo com sacolas de compras e dois filhos pequenos ao lado do pai.

O gesto de abrir os braços pode significar muita coisa. Pode ser espanto, pode ser pergunta, pode ser aquela fração de segundo em que um ser humano tenta interpor o próprio corpo entre uma criança e o que acabou de acontecer com ela. A menina tinha três anos. Ela caiu no chão depois do chute. Depois se levantou. Os três voltaram a andar.

O pai foi à delegacia na quarta-feira para prestar depoimento. Foi ouvido e liberado. Na quinta, preso. Em depoimento, confirmou a agressão. Alegou que foi motivado pelo choro da criança. Disse não se recordar completamente dos fatos.

Não se recordar completamente dos fatos.

Existe um tipo de esquecimento que é quase uma confissão inteira. A criança, ela certamente lembra. Não com palavras, não ainda, mas o corpo de três anos guarda o que a memória ainda não sabe nomear. Guarda na forma de um susto que vem antes do barulho, de uma hesitação antes de pegar na mão.

O delegado Anderson Andrei disse que o caso configura, no mínimo, lesão corporal. Medidas protetivas foram pedidas para as crianças e para a mãe. O Conselho Tutelar foi acionado. A mãe registrou boletim de ocorrência. A menina passou por exame de lesão corporal. A polícia aguarda o laudo e busca mais imagens de câmeras no trajeto daquele dia.

O mundo ao redor do fato foi se movendo com a lentidão correta das instituições: inquérito, depoimento, prisão, laudo, medida protetiva. É o que existe. É o que funciona quando funciona.

Mas o que fica, quando se fecha a notícia, é o homem que abriu os braços no meio da calçada. Sem câmera, sem nome citado, sem saber que seria visto por tanta gente. Ele estava ali simplesmente porque estava ali, e viu, e fez o único gesto que cabia naquele instante: o de quem ainda acredita que pode mudar alguma coisa abrindo os braços no ar.

Às vezes é o suficiente. Às vezes é tudo que temos.

Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.

Leia o factual: Polícia prende pai por chutar filha de três anos no Paraná

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL