Venezuela: a contagem de mortos que a crise já havia começado
Análise · Clara Verdi Quase quatro mil mortos. O número, divulgado pelo governo venezuelano nesta quinta-feira, representa o que sobrou de dois…
Análise · Clara Verdi
Quase quatro mil mortos. O número, divulgado pelo governo venezuelano nesta quinta-feira, representa o que sobrou de dois tremores que duraram segundos — magnitudes 7,2 e 7,5, ocorridos em 24 de junho — e de décadas de desinvestimento em infraestrutura urbana, colapso institucional e uma crise humanitária que já consumia o país antes de qualquer abalo sísmico. A Venezuela não foi destruída pelo terremoto. Ela chegou ao terremoto já destruída.
La Guaira é o epicentro simbólico dessa equação. O estado costeiro, porta de entrada histórica da Venezuela ao mundo, teve mais de 800 edifícios afetados, 190 dos quais simplesmente desabaram. Não é difícil imaginar o que significa isso em uma região onde o estoque habitacional já vivia à beira do colapso funcional — e onde a capacidade do Estado de fiscalizar, manter ou reconstruir havia sido corroída por anos de erosão institucional. O que cede primeiro em um terremoto não é o concreto. É a margem de segurança que o concreto deveria ter tido.
A ONU encomendou 10 mil sacos para armazenamento de corpos no dia 29 de junho. Essa compra, feita cinco dias após os tremores, diz mais sobre a escala antecipada da tragédia do que qualquer boletim oficial. O Programa Mundial de Alimentos pede agora 50 milhões de dólares para assistir 500 mil pessoas nos próximos três meses — enquanto a ONU tenta mobilizar quase 300 milhões de dólares para a recuperação mais ampla do país. São números que colocam a Venezuela no mesmo registro de emergências humanitárias agudas que normalmente associamos a conflitos armados, não a desastres naturais. A distinção, aqui, começa a perder sentido.
O que torna essa crise politicamente singular é a sobreposição de camadas que ela expõe. Delcy Rodríguez, presidenta interina após a captura de Nicolás Maduro em janeiro, enfrenta simultaneamente a pressão da população — que critica a lentidão da resposta de emergência — e a negociação com o FMI para desbloquear ativos venezuelanos congelados no exterior. A mesma estrutura que por anos usou esses ativos como moeda de barganha política agora precisa deles para comprar caixões. Há nessa inversão uma ironia que Pasolini chamaria de histórica — não no sentido elogioso.
A resposta do regime às críticas, segundo os relatos, foi acusar "laboratórios midiáticos" de sabotar o trabalho das equipes de emergência. É o reflexo condicionado de aparatos autoritários diante da pressão: quando não se pode acelerar o socorro, acusa-se quem mede sua lentidão.
Antes dos tremores, a ONU estimava que quase 8 milhões de venezuelanos precisavam de algum tipo de assistência humanitária. O terremoto não criou essa realidade. Ele a tornou impossível de ignorar — e, por um momento, converteu em problema diplomaticamente urgente o que antes era apenas cronicamente grave. A pergunta que fica não é sobre a magnitude dos tremores. É sobre o que acontece quando a janela de atenção internacional se fechar e a Venezuela voltar a ser, nos editoriais do mundo, apenas uma nota de rodapé sobre autoritarismo latino-americano. Os 17.907 desabrigados ainda estarão lá.
Clara Verdi, correspondente Europa da Xaplin
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Mortos por terremotos na Venezuela sobem para 3.889
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · CNN Brasil · UOL