O homem de Manchester e seu evangelho profano
Análise · Clara Verdi A política britânica consome seus líderes com a voracidade de uma divindade antiga, e o púlpito diante do número 10 da Downing…
Análise · Clara Verdi
A política britânica consome seus líderes com a voracidade de uma divindade antiga, e o púlpito diante do número 10 da Downing Street tornou-se um altar de despedidas. Keir Starmer, o sétimo primeiro-ministro a cair desde 2016, saiu prometendo ter encurtado filas de hospitais, como se a história fosse julgar um governo por sua eficiência burocrática e não por sua capacidade de dar sentido a um tempo. A porta giratória de Westminster, no entanto, não é o fato central; é apenas o sintoma febril de um país que há uma década procura um centro que não existe mais. E é nesse vazio que entra Andy Burnham, o ex-prefeito da Grande Manchester, com a promessa menos de um novo plano econômico e mais de uma nova fé cívica.
A identidade de Burnham não se encontra nos manuais de política de Oxford ou nos corredores do Parlamento, mas numa tríade que ele mesmo enunciou como seu credo: Everton, o Partido Trabalhista e a Igreja Católica, “nessa ordem”. Não é uma piada, mas um mapa cultural. Ser torcedor do Everton, o outro time de Liverpool, é uma declaração de pertencimento local, de lealdade a uma história que não se mede apenas por troféus, mas pela persistência contra o vizinho mais rico e célebre. É uma política da identidade forjada nas arquibancadas de Goodison Park, não nos salões de um clube londrino.
Essa gramática popular, alheia à linguagem pasteurizada de Westminster, explica sua maior vitória política antes de se tornar premiê: a chamada lei de Hillsborough. Uma legislação que nasce da maior tragédia do esporte britânico, da luta de décadas das famílias das 97 vítimas contra a mentira oficial que culpava os próprios torcedores. Burnham não ofereceu uma solução tecnocrática; ele lutou por uma reparação moral, um mecanismo legal contra o encobrimento de provas por parte do Estado. Ele entendeu que a ferida de Hillsborough não era sobre futebol, mas sobre classe, poder e a arrogância das instituições diante da gente comum.
Seu catolicismo, uma anomalia para um chefe de governo britânico, completa o retrato. Não se trata de teologia, mas de uma tradição cultural que o situa fora da corrente principal do establishment anglicano. Ao dispensar o púlpito no seu primeiro dia e abraçar a mãe, Burnham não fazia um gesto de marketing. Fazia uma profissão de fé no profano, na política como algo que se vive na rua, no estádio, em casa. Seu desafio, agora, é traduzir esse evangelho do norte industrial, feito de lealdades tribais e de uma desconfiança visceral do poder central, para a escala de uma nação inteira que se esqueceu em que acreditar.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Andy Burnham assume como novo premiê do Reino Unido
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo