O homem da pasta e a esperança no Pix
Crônica · Heitor Graça Na confusão do metrô da Carioca, vi um rapaz de terno entregar um folheto a uma senhora.
Crônica · Heitor Graça
Na confusão do metrô da Carioca, vi um rapaz de terno entregar um folheto a uma senhora. Terno e metrô, em dias de calor, já formam uma imagem sofrida. Ela pegou o papel com a mão que não segurava a bolsa, agradeceu com um aceno de cabeça e seguiu seu rumo, talvez para a Uruguaiana, talvez para casa. O rapaz repetiu o gesto com um sujeito de camisa de time, que nem olhou, e com uma moça que guardou o papel na mochila. Ninguém parava. Eram só mais folhetos, como os que anunciam show de comédia ou o almoço executivo da esquina.
Lembrei de meu pai. Não que ele andasse de metrô, mas ele tinha uma fé quase religiosa em processos, em papel timbrado, na palavra final de um homem de gravata. Uma ação que se arrastava há anos, coisa de vizinho e um muro, era para ele uma novela cujo último capítulo traria a justiça em letras maiúsculas. Se um dia ligassem para ele, dizendo que o capítulo final estava a um Pix de distância, ele pagaria. Pagaria com a pressa de quem finalmente vê o fim do túnel.
Depois, no café, li a notícia. A OAB distribuía aqueles folhetos para alertar sobre o golpe do falso advogado. Mais de dois mil casos só no Rio. A mecânica é de uma crueldade simples: os processos são públicos, a esperança é privada. O golpista pega os dados de quem espera e se aproveita da fragilidade, da ansiedade de resolver a vida. Pede um dinheiro rápido para liberar o dinheiro grande que nunca virá.
Não é um golpe sobre dinheiro. É um golpe sobre o tempo. Sobre os anos que uma pessoa passa esperando uma decisão, a energia que deposita naquilo, a pequena chama de otimismo que mantém acesa. O bandido não rouba só o Pix. Rouba o alívio que a vítima sentiu por um instante, a ilusão de que a longa espera tinha, enfim, acabado. Essa maldade me parece mais funda.
Claro, a tecnologia pode ajudar a fechar as brechas, e o projeto de lei talvez endureça a pena. São movimentos necessários. Mas a matéria-prima do vigarista, essa, não some com lei nem com sistema.
Fico pensando na senhora do metrô. Será que ela leu o folheto antes de chegar em casa? Ou ele se perdeu no fundo da bolsa, junto com contas antigas e uma bala de hortelã?
Heitor Graça — Cronista carioca. Xaplin.
Leia o factual: OABRJ registra mais de 2 mil denúncias de golpe do falso advogado
Fonte: Agência Brasil