O governo e o clima: um anúncio de R$ 1,3 bilhão
Análise · Luciano Aragão O pacote para mitigar os efeitos do El Niño foi anunciado pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, com o número redondo…
Análise · Luciano Aragão
O pacote para mitigar os efeitos do El Niño foi anunciado pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, com o número redondo de R$ 1,3 bilhão. O detalhe, como de costume, estava na explicação do cálculo. A cifra junta investimentos recentes com os previstos para o segundo semestre. Em Brasília, até o clima obedece a um calendário de entregas.
A iniciativa do governo federal é uma cartografia da desigualdade climática do país, agora acentuada pelo fenômeno que aquece as águas do Pacífico. O plano prevê ações corretivas em barragens e diques no Sul, onde o El Niño significa enchentes. Para o Norte e o Nordeste, que enfrentarão a seca, a promessa é de mais brigadistas, equipamentos contra incêndios e reforço na segurança hídrica.
O núcleo do programa, no entanto, é menos sobre infraestrutura e mais sobre sobrevivência imediata. O governo planeja comprar 180 mil toneladas de milho e 310 mil toneladas de arroz para recompor estoques públicos. Outras 350 mil cestas de alimentos serão destinadas a populações vulneráveis — indígenas, quilombolas, ribeirinhos. É a admissão, em forma de política pública, de que a ponta da crise climática é a fome.
A política do estoque
A menção a projetos estruturais, como a integração do Rio São Francisco e a construção de adutoras, serve a um duplo propósito. Lembra o eleitorado de obras em andamento, beneficiando 12 milhões de pessoas em quatro estados nordestinos, e associa o esforço contínuo à nova emergência. A ministra Belchior também fez questão de citar dados de redução de desmatamento na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal, apresentando-os como parte da mesma estratégia de enfrentamento.
O resultado é uma peça de comunicação que mistura reação e prevenção, o emergencial e o estrutural. A compra de grãos para o estoque regulador é uma ação tática, de efeito rápido. A recuperação de uma barragem ou a expansão de um canal de irrigação são projetos de outra natureza e outro cronograma. Ao empacotar tudo sob a mesma rubrica bilionária, o governo transforma uma série de ações administrativas fragmentadas em um gesto político coeso.
A eficácia do plano dependerá menos do anúncio e mais da execução silenciosa, longe dos microfones do palácio. O clima não espera o Diário Oficial.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
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Fonte: Agência Brasil