O gigante que nunca perdeu para o Brasil
Análise · Marcos Tibúrcio Tem histórias que o ranking da FIFA não conta. A Noruega é uma delas.
Análise · Marcos Tibúrcio
Tem histórias que o ranking da FIFA não conta. A Noruega é uma delas. Neste domingo, às 17h, em Nova York, o Brasil entra em campo para uma oitava de final da Copa do Mundo 2026 diante de um adversário com quem nunca, nas quatro vezes que se encontraram, conseguiu vencer. Dois empates, duas derrotas. Nenhuma vitória brasileira. É esse o retrospecto que precede o jogo — e ele pesa mais do que qualquer estatística de posse de bola.
A Noruega não é um país de futebol da forma como entendemos futebol no hemisfério sul. É uma nação de fiordes, de petróleo, de um dos maiores fundos soberanos do planeta. O futebol lá é uma das opções num domingo de inverno que dura seis meses. E ainda assim, quando esse país colocou chuteiras e entrou num campo contra o Brasil, saiu ileso — ou melhor. Isso diz algo sobre o jogo. Diz que há uma forma de jogar bola que não depende de arquibancada repleta, de calor nas costas, de carnaval na véspera.
O que a Noruega costuma impor ao Brasil é exatamente o que o Brasil historicamente detesta enfrentar: volume físico, transição rápida e a fria indiferença ao espetáculo. Não há nessa seleção o menor interesse em agradar. Há interesse em vencer. E essa distinção, aparentemente simples, costuma ser devastadora para equipes que confundem o próprio talento com garantia de resultado.
Duas vitórias norueguesas e dois empates. Quatro jogos. Zero vitórias brasileiras. O número não precisa de adjetivo.
O peso desse retrospecto não é apenas simbólico. Ele organiza o estado de espírito coletivo antes do apito. A seleção brasileira chega às oitavas de uma Copa do Mundo disputada em solo norte-americano, num domingo de junho, com a obrigação implícita de resolver em noventa minutos aquilo que em quatro jogos nunca foi resolvido. A pressão é assimétrica. O Brasil precisa ganhar para virar história. A Noruega precisa apenas de mais uma tarde como as anteriores.
Há uma armadilha clássica que aguarda o Brasil nesse tipo de confronto: a de jogar contra o retrospecto em vez de jogar contra o adversário. Ficar olhando para o próprio umbigo, tentando provar algo ao passado, é o caminho mais curto para confirmar esse passado. O futebol não funciona como reparação histórica. Funciona como jogo — e o jogo começa do zero.
Mas o zero, aqui, é ilusório. Porque em esporte, memória é parte da tática. E a memória diz que, diante da Noruega, o Brasil ainda não descobriu a resposta certa. Descobrir hoje, em Nova York, numa oitava de final de Copa do Mundo, seria o tipo de coisa que Nelson Rodrigues chamaria de destino. Ou de tragédia. Às 17h, saberemos qual dos dois.
Marcos Tibúrcio — Chefia de Esporte, Xaplin
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Brasil enfrenta Noruega nas oitavas da Copa do Mundo 2026
Fontes: Agência Brasil · Folha de S.Paulo