O Brasil não joga para ganhar — joga para ter razão
Análise · Marcos Tibúrcio Tim Vickery chegou ao Brasil em 1994, inglês de formação, jornalista de vocação, e passou três décadas observando um país…
Análise · Marcos Tibúrcio
Tim Vickery chegou ao Brasil em 1994, inglês de formação, jornalista de vocação, e passou três décadas observando um país que trata o futebol como prova de tese. Não é análise gratuita de quem olha de fora. É diagnóstico de quem escolheu ficar dentro. E o que ele enxerga, agora que Carlo Ancelotti orienta Martinelli em campo de Copa do Mundo, merece ser levado a sério com a mesma seriedade que o Brasil raramente aplica a si mesmo.
O contraste que Vickery aponta é preciso demais para ser ignorado: o Brasil se vende ao mundo como país da alegria, da ginga, do improviso generoso — e, ao mesmo tempo, carrega uma relação com a seleção que tem pouco de alegria e muito de exigência tácita de supremacia. Não é paixão, no sentido mais humano da palavra. É crença numa hierarquia natural, num direito adquirido. Como se os títulos entre 1958 e 1970 tivessem criado uma certidão de nascença para a vitória permanente.
Esse é o peso que nenhum técnico — nem estrangeiro, nem brasileiro — consegue carregar sem ranger. Ancelotti, homem que ganhou tudo o que existe para ganhar no futebol de clubes, descobre agora a geometria específica desse fardo. Martinelli faz o gol da virada sobre o Japão, e o italiano está lá, orientando, presente. A imagem funciona. Mas a pergunta que Vickery coloca não é sobre resultado — é sobre o que o torcedor faz com o resultado. Se o Brasil vence de forma irregular, sofre, precisa de virada, a vitória é processada como vexame com final feliz. Não como drama humano, que é o que o futebol sempre foi.
A memória de 58, 62 e 70 não é arquivo — é cobrança ativa. E cobrança ativa deforma a percepção do presente.
Há algo de peculiar nessa arrogância que Vickery nomeia. Ela não se alimenta de conquistas recentes — alimenta-se justamente da ausência delas. O Brasil não ganha a Copa desde 2002, e exatamente por isso a pressão por um futebol que corresponda à linhagem mítica aumenta a cada ciclo. É uma dívida que rende juros. E juros que, quando não são pagos no campo, encontram pagamento numa espécie de tribunal permanente da torcida, da mídia, do país que precisa que o futebol confirme algo sobre si mesmo.
O que Vickery oferece, no fundo, é um espelho. E espelhos incomodam mais do que adversários. O Japão foi vencido. A virada aconteceu. Martinelli celebrou. Mas a questão que o inglês-carioca coloca sobrevive ao placar: o Brasil consegue assistir ao próprio futebol sem a camisa-de-força da exigência mítica? Consegue se surpreender com uma jogada sem imediatamente compará-la ao que Pelé fez em 1970?
Essa Copa, com Ancelotti no banco e uma geração nova em campo, pode ser a ocasião. Ou pode ser mais uma prova de que a memória, quando vira doutrina, pesa mais do que qualquer marcação adversária.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Tim Vickery aponta contraste entre superioridade do Brasil no futebol
Fontes: g1 · BBC News Brasil