O futebol que não parou para ver a Copa
Análise · Marcos Tibúrcio A Copa do Mundo masculina, sabe-se, é um hiato no calendário da vida.
Análise · Marcos Tibúrcio
A Copa do Mundo masculina, sabe-se, é um hiato no calendário da vida. O planeta para, as ruas se esvaziam, o tempo se conta em jogos das duas, das cinco, das oito. No Brasil, o futebol dos clubes recolhe suas bandeiras e vai para casa esperar. Mas não todo ele. Enquanto o mundo olhava para os estádios da América do Norte, a bola continuou a rolar em campos onde o drama é menos televisionado, porém não menos real.
O Campeonato Brasileiro Feminino retorna agora, depois de dois meses de um silêncio imposto, e o duelo em Flores da Cunha entre Juventude e Ferroviária é o retrato de um esporte que joga seu próprio campeonato contra a indiferença. A partida não opõe apenas duas equipes; opõe duas realidades distintas, forjadas na longa espera.
De um lado, a Ferroviária de Araraquara. Para elas, a pausa foi apenas no calendário oficial da liga. O time não hibernou. Entrou em campo, sentiu o cheiro da grama, o peso da derrota para o Corinthians no Paulista e o gosto da vingança contra o mesmo rival, dias depois, na Copa do Brasil. As jogadoras de Araraquara não chegam frias. Chegam com as pernas aquecidas e a memória recente da competição. Lutam para voltar ao grupo dos quatro primeiros, um lugar de onde se avista o título.
Do outro lado, o Juventude. Para as gaúchas, a interrupção foi absoluta. Foram dois meses de treinos, de portões fechados, de saudade daquela tensão que só o apito inicial provoca. O time pisa no gramado do Homero Soldatelli carregando o pó desses sessenta dias. E, mais pesado que a falta de ritmo, o fardo de estar na beira do abismo: a luta não é pela glória, é pela sobrevivência na elite.
Não há registro de estádio lotado ou de comoção nacional para este jogo. O que há é a verdade de um futebol que se recusa a ser coadjuvante. Enquanto a Copa do Mundo celebra seus heróis consagrados, em Flores da Cunha se joga por algo mais fundamental: o direito de existir, de competir, de ter um campeonato que não precise pedir licença para acontecer. A Ferroviária entra com o ritmo de quem já voltou à guerra; o Juventude, com a urgência de quem precisa vencer a primeira batalha depois da paz forçada. O resultado, qualquer que seja, dirá menos sobre os noventa minutos e mais sobre o que significa, de fato, não parar a bola.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge